sábado, 15 de abril de 2017

Abraços pela cidade, ruptura com o clube: a rotina paradoxal das viúvas de Chapecó

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O cenário segue ali, decorado e arrumado como se tudo estivesse igual. Não está. Os personagens principais não vão mais entrar em ação, e os roteiros das vidas de Rosângela e Suzi agora têm capítulos indefinidos. Em nome dos filhos, as duas são as únicas viúvas de jogadores que seguem em Chapecó após o acidente de 29 de novembro. Sacrifício para estancar as feridas dos herdeiros, mas que castiga na rotina agora sem Cléber Santana e Thiego. Mistura de emoções como a que as divide entre o amparo dos chapecoenses e uma ruptura iminente com a Chapecoense.

Rosangela, viúva do meia, e Suzi, do zagueiro, se emocionam ao relatar cada abraço repentino que recebem nas ruas da cidade, cada palavra de carinho. O tom muda, porém, quando é para falar do clube. Com a frase “a Chape família que existia não existe mais”, as duas apontam falta de atenção e zelo com os familiares das vítimas, tratam o distanciamento como praticamente incontornável, e isentam apenas uma pessoa: Maninho. Por respeito ao presidente, elas não fazem parte do grupo que busca na Justiça o que julga ser de direito quanto a seguro e indenizações. Por enquanto…
– Se não fosse ele, que é uma pessoa muito honesta, já teria colocado até na Justiça, o que com certeza vou fazer no futuro, atrás dos direitos dos meus filhos. É o que meu marido deixou. Ficamos em Chapecó, não com a Chapecoense. Se fosse a outra diretoria, se tivessem sobrevividos dois pelos menos… A Chape que existia morreu. Não é mais a mesma. E a nova, para mim, já está formada. Se perder amanhã ou depois, é pelo futebol, não por estar passando por nada. Quem está passando somos nós, sem maridos, ouvindo os filhos chorarem – desabafou Rosângela Loureiro, mãe de Clebinho, de 15 anos, e Haroldo, de 12.
Apesar de mais discreta, Suzi segue a mesma linha de raciocínio da amiga e vizinha. Decidida a ficar em Chapecó desde o acidente, a viúva de Thiego chegou a receber promessas de emprego na Chapecoense, mas confessa que este não seria o melhor caminho para recolocar a vida no lugar. Sua ocupação em 2017 será dedicar-se a pequena Nina, que completou cinco anos no último dia 27, motivo do número da camisa do pai.
– Quando aconteceu isso, a Chape falou em oferecer emprego, mas não tem condições. Eu não consigo entrar lá (na Arena). Teve uma reunião recente, eu fui lá, tive uma crise de choro e fui embora. E também não quero misturar as coisas. Meu dia agora é para cuidar da Nina, não vou fazer nada. Fiquei também pelas questões burocráticas que têm que ser resolvidas. O Seu Maninho, quando vim para cá, me ajudou muito. Foi a única pessoa.
Imune ao fogo cruzado entre Chapecoense e viúva, Maninho foi procurado pelo GloboEsporte.com, mas preferiu não se manifestar sobre o caso.
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O distanciamento de Rosângela e Suzi da Chapecoense reflete a postura coletiva das viúvas dos atletas, que seguem unidas e em contato diário através um grupo de WhatsApp. Nas redes sociais, elas costumam se manifestar com postagens em conjunto, como as que cobravam maior agilidade na entrega dos pertences encontrados na Colômbia e as que questionaram os eventos realizados no dia da decisão da Recopa, contra o Atlético Nacional, na Arena Condá.
A rotina das remanescentes em solo chapecoense, entretanto, tem prazo de validade. A medida que os filhos passem a tratar de forma mais natural a nova realidade, Rosângela projeta retornar para o Recife, e Suzi para Porto Alegre. Enquanto isso se dividem entre o vazio de um cenário intocado, mas bastante alterado, e a necessidade de levar a vida adiante, conforme se abriram em bate-papo com o site GloboEsporte.com:
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