quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Entrevistado pelo Portal JH, deficiente visual Angicano conta sua batalha para caminhar no alecrim em Natal.



A informação é do repórter Roberto Campellon'O Jornal de Hoje. Eis na íntegra:
A reportagem de O Jornal de Hoje acompanhou o dia a dia de um deficiente visual durante o deslocamento de sua residência, no bairro da Cidade da Esperança até o centro comercial do Alecrim.
Logo no encontro, o primeiro obstáculo se coloca diante de José Ivanildo Silva, de 37 anos.  

O ponto de ônibus próximo a Rodoviária de Natal, na avenida Capitão Mor Gouveia, onde funcionava uma antiga estação de transferência não foi adaptada para garantir acessibilidade a quem tem algum tipo de deficiência. A calçada é alta e os ônibus, às vezes, param distante dela, o que dificulta o acesso das pessoas ao transporte. 

Ele lembra que já perdeu uma bengala nesta parada. “Quando o ônibus parou uma pessoa, na pressa por pegar o ônibus, chutou a minha bengala pra debaixo do ônibus e o motorista não viu e passou por cima”, relatou.


“É comum termos que descer a calçada para subir no ônibus. Imagino que isso deve ser complicado para quem enxerga, quem dirá para quem não consegue ver nada. Alguns motoristas têm paciência, outros nem tanta. E é assim, em meio as dificuldades, que pegamos os ônibus aqui nessa parada, bem como em outras que apresentam as mesmas dificuldades”, disse. Além disso, como não enxerga, José Ivanildo depende das pessoas para informar quando o ônibus que ele deseja pegar chega à parada. “Os ônibus poderiam ter algum tipo de sonorização para que, quando parassem, identificássemos sem precisar da boa vontade de alguém”.

No caminho até o centro comercial do Alecrim, José Ivanildo, que nasceu no município potiguar de Angicos e há cinco anos mora em Natal, conta um pouco da sua história. Cego desde que nasceu, José Ivanildo veio para a capital para estudar e hoje ganha a vida como músico. Ele toca sanfona, teclado, violão e zambumba, além de cantar em um trio formado apenas por deficientes visuais. “Nunca vi nada, daí conseguimos nos acostumar desde cedo. Não ver nada é normal para mim assim como ver as coisas é normal para as demais pessoas. Quando não enxergamos desenvolvemos as outras habilidades. O fato de ser deficiente físico não é empecilho para nada. Acredito que desenvolvemos muito mais rápido e audição fica bem mais aguçada, o que ajuda na minha profissão. Afinal, música não requer visão e, sim, audição”, destacou.

Com seis irmãos, José Ivanildo foi o único que nasceu cego, mas nem por isso levou uma vida diferente das demais crianças de Angicos. “Minha infância foi tranquila. Me diverti e brinquei como qualquer outra criança, inclusive jogando bola. Não tinha como esquecer que era cego, até porque isto é o que eu vivo desde que nasci. Como não conheço o sol, nem a lua, o claro ou o escuro, distingo se está de dia ou de noite pelo calor”, destacou.
Quando morava em Angicos, José Ivanildo tinha a mãe, os irmãos e sobrinhos como guias. Aqui em Natal, o desafio é maior, pois ele mora sozinho e tem que caminhar e enfrentar os desafios da cidade grande sem os parentes. “Levo uma vida normal como qualquer outra pessoa. Resolvo meus problemas sozinho, sem precisar de ninguém. Se me der o endereço com o ponto de referência eu chego em qualquer local de Natal sem problema nenhum. Hoje a população já começa a ver os deficientes de outra forma. Antes nos viam apenas como pedintes ou incapazes, e pouco a pouco isso vem mudando e consequentemente a solidariedade das pessoas também”, afirmou o músico, que já teve inúmeras profissões em Angicos, como vendedor de cosmético e locutor. “A deficiência só impede algo quando ficamos limitados a ela. Nunca fiz isso. Sempre segui em frente. Temos que pelo menos tentar. Eu optei por ser uma pessoa que não se entrega as limitações”.
Chegando ao bairro do Alecrim, além das calçadas que são barreiras arquitetônicas aos deficientes, a falta de conscientização de comerciantes também é uma realidade no maior centro comercial da cidade. Com mercadorias expostas nas ruas, cadeiras de lanchonetes nas calçadas e toldos na altura dos olhos, os deficientes visuais não conseguem se sentir seguros e esbarrar nesses obstáculos é comum no dia a dia.
José Ivanildo conta que mesmo com sua bengala como auxílio são muitos problemas para serem enfrentados apenas com alguns passos. “Nunca cheguei a me machucar, mas já levei vários sustos com buracos no chão, postes no meio da calçada, barracas na rua ou toldos de lojas que batiam na minha cabeça. Já cai dentro de duas bocas de lobo, uma aqui na avenida 7 e outra em Felipe Camarão. Outra vez, derrubei uma pessoa, sem querer, com a minha bengala. Enfim, as dificuldades são muitas, e as vezes, por conta das calçadas altas somos obrigados a andar pela rua, onde o risco é bem maior”, recorda.
Durante a caminhada pelo comércio do Alecrim, José Ivanildo recebeu gestos de carinho e atenção das pessoas, outras o tratavam com normalidade, enquanto outras eram indiferentes a sua deficiência. “Me tratando com respeito estou feliz. Sou uma pessoa normal como outra qualquer, apenas tenho uma deficiência, e considero o mais importante o respeito”, disse o músico, que durante todo o percurso não economizou pedidos de “com licença”. Devido à pressa, algumas pessoas chutaram a bengala de José Ivanildo, o que o desequilibrou em alguns momentos.
Atravessar a rua ou uma avenida movimentada é outro grande desafio para os deficientes visuais. No cruzamento da avenida Presidente Bandeira com a Coronel Estevam, um dos pontos mais movimentados do Alecrim, a faixa de pedestre não dispõe de nenhum mecanismo que oriente aos deficientes visuais se o sinal está aberto ou fechado. José Ivanildo imagina que o sinal fechou apenas porque os carros pararam. “O ideal seria um semáforo sonorizado ou outro mecanismo que nos orientasse o momento certo de atravessarmos a rua”, pondera.
José Ivanildo conta que não tem medo de caminhar em meio aos obstáculos do Alecrim. Ao contrário dele, sua namorada, que também é deficiente visual, não sai de casa sem um guia, que é o próprio José Ivanildo. “Ela não consegue andar só e termina que eu, mesmo sendo cego, sou o guia dela e nunca deu problema. Sempre chegamos onde queremos, nunca nos machucamos e sempre dá tudo certo. Além disso, aos poucos ela está perdendo este medo”, disse.
Aos 37 anos, José Ivanildo não esconde os sonhos que ainda estão por realizar. Pilotar uma moto e dirigir um carro estão entre esses sonhos que o músico que tem. “Tudo o que eu quero eu tenho conseguido. Queria poder ver as coisas do céu, como a lua, as estrelas, as belezas celestes. Tenho o desejo de ter a própria visão e poder contemplar essas belezas que devem ser maravilhosas”, revela. Ele concluiu o Ensino Médio e ainda pensa em cursar uma graduação no curso de Direito. “Este é outro sonho que tenho desde pequeno e ainda não desisti. Não consegui fazer na federal [Universidade Federal do Rio Grande do Norte] e hoje não estou com condições de pagar uma particular, mas ainda serei um advogado para defender os direitos dos deficientes”, destacou José Ivanildo.Fonte:J
Fonte: Blog Angicos Noticias

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários serão avaliados antes de serem liberados

PRF apreende anfetamina com caminhoneiro em João Câmara

A Polícia Rodoviária Federal abordou, na última sexta-feira 17, em João Câmara, um motorista de caminhão e apreendeu uma cartela com 12 com...