Com a estiagem prolongada, qual a perspectiva de produção do setor sucroalcooleiro este ano?O Estado tem capacidade instalada de processar 4,7 milhões toneladas de cana, mas das quatro unidades industriais, três estão processando: duas usinas, a Estivas e a Vale Verde (açúcar e etanol), e uma destilaria a Ypióca (etanol e cachaça). Ano passado, a produção 2012/2013 foi de 2,150 milhões toneladas de cana, menos da metade que pode produzir. E para essa safra 2013/2014, dependendo ainda se continuar chovendo até setembro, deve ficar entre 1,5 a 2 milhões de toneladas de cana. Será a pior safra dos últimos 30 anos. A produção de açúcar e etanol no Estado terá um volume bem reduzido. Não dá para estimar quanto, porque depende da decisão de cada usina.
Qual a estimativa da queda na produção?
A quebra de safra passada (2012/2013) foi de 40%, e a retrasada (2011/2012) em mais 40%. O faturamento despencou 50% e soma-se a isso a queda no preço da cana de açúcar. O quadro é muito grave. Aqui e a Paraíba foram os estados mais afetados, pela questão dos solos. Nossa produção é voltada para exportações e mercado interno, ainda atendemos com açúcar o Ceará e Piauí.
Ana Silva
Renato Lima Ribeirto foi secretário municipal de Agricultura de Goianinha, por duas gestões (1996-2000 e de 2010-2012), é secretário-geral da União Nordestina dos Produtores de Cana (Unida), membro do Conselho Administrativo da Federação dos Plantadores do Brasil (Feplana) e está há dez anos à frente da Asplan/RN.
Pela dinâmica do mercado, a redução da oferta eleva os preços. Isso não se aplica ao preço da cana? Por quê?
Não, porque o açúcar e o álcool são produzidos em todo o país. E o problema da seca se restringe ao Nordeste que detém somente 10% da produção nacional, não teve impacto no preço global. Fora que, no Centro Sul e Sudeste, a safra passada foi boa e isso puxou o preço da cana de açúcar para baixo. E o preço da cana é calculado em cima do preço do açúcar e do etanol.
Houve também queda nas exportações de açúcar. Pode faltar produto este ano?
Aqui o grupo francês (Louis Defrois), da Estivas, escoa pelo Porto de Natal. Para cumprir os contratos, eles devem mandar via outro terminal no Centro-Sul onde tem outras empresas e safra.
A culpa é só da seca ou outros fatores contribuíram para a queda na produção?
A seca é o principal fator. Mas também há a descapitalização do setor sucroenergético que atravessa uma crise grave, de alto endividamento. O setor investiu muito para atender uma possível demanda com a abertura do mercado japonês para o etanol brasileiro que não se concretizou. O governo Lula fez muita propaganda do nosso etanol, atraiu os investidores japoneses no momento em que o país adotou a medida de adicionar anidro à gasolina, os japoneses viram que o Brasil tinha condições de produzir, mas não para escoar a produção, não havia logística para transportar das unidades produtoras e os terminais portuários. Algumas empresas privadas investiram e estão construindo os chamados alcooldutos, não aqui, em outros estados Goiás, Rio de Janeiro a Santos (SP). Com a promessa de investimento em infraestrurura, o setor privado pegou financiamento do BNDES investiu, plantou cana e no momento em que foi anunciado a camada do pré-sal, o governo simplesmente esqueceu o setor. Existe em todo país mais de 80 usinas com placas de venda e sem comprador. Está provado que o etanol é um combustível mais limpo, já existe aí o álcool de segunda geração, feito do bagaço da cana de açúcar.
O álcool de segunda geração seria uma forma mais viável de restabelecer a produção?
Para você ter ideia, se pegássemos hoje a capacidade instalada de produção de todo o país, cerca de 400 usinas e destilarias, e instalássemos unidades para co-gerar energia do bagaço da cana teríamos o potencial equivalente a uma Itaipu. Mas muito poucas tem geração de energia, porque o custo é muito elevado, um investimento de mais de R$ 100 milhões. Isso demonstra que é um setor estratégico para o desenvolvimento do país, mas não há um planejamento sério para o setor.
O Governo anunciou há menos de um mês o corte de Cofins e PIS para o etanol. Essa política não beneficiou os produtores?
O setor está doente e o governo simplesmente passou um remédio paliativo. Foram medidas emergenciais, mas que não resolvem a crise. O etanol está muito atrelado ao preço da gasolina. O consumidor quando vai ao posto, se o preço do etanol não estiver 70% do preço da gasolina, ele vai optar pela gasolina. E o custo para se produzir etanol subiu muito nos últimos três anos.
E o que é necessário?
O Governo precisa dar uma atenção maior essa questão do endividamento tanto das unidades industriais, quanto para os produtores de cana.
Qual o montante dessa dívida e o que está sendo feito?
Das usinas eu não tenho como mencionar. E o endividamento dos produtores rurais não é restrito ao setor de cana. Houve uma série de renegociações que não resolveram. Precisamos de uma lei específica para o setor, já que hoje estamos no bojo dos produtores rurais. Nós temos um projeto de corte dos juros e da correção monetária acumulada das dívidas, além do que fazem credenciar e o alongamento do prazo para pagamento, de acordo com a capacidade do produtor, mas isso não avança, infelizmente. Essa semana nos reunimos no Ministério da Fazenda, também nos reunimos para pedir o apoio do deputado Henrique Alves. O Ministério da Fazenda é muito insensível com o endividamento do Nordeste. Em virtude da seca, se não houver uma medida específica essa dívida é impagável. Sem quitá-las, o produtor fica impedido de contrair novos créditos, perde a capacidade de investir e de produzir.
O seguro-safra que está sendo pago tem contribuído para reduzir o endividamento?
Mesmo no bojo dos produtores rurais, o setor da cana não tem direito a esse seguro. É muito irrisório. Porque há peculiaridades. As seguradoras não tem tradição, além da sazonalidade, há problemas como incêndios criminosos.
O faturamento médio era de quanto?
Não tenho como precisar o valor total do setor no estado. Mas estimamos o prejuízo em mais de R$ 100 milhões. Com o faturamento lá embaixo e o preço caindo, será que o produtor conseguiu pagar o custeio que pegou no banco? E se não pagou, será que conseguiu renovar o custeio? Se não, vai ter como adquirir os insumos?
A retomada da produção deve ocorrer em quanto tempo?
São necessários pelo menos quatro anos para retomar a média anual de safra, que em anos de inverno normal, gira de 3 a 3,2 milhões de toneladas de cana. Porque se planta cana para colher um ano depois. Se conseguirmos plantar esse ano, tiver chuvas até setembro e se o governo der apoio com linhas de crédito especiais para o setor no Nordeste, teremos ainda que recompor a área cultivada. Houve uma mortandade de cana, uma perda de no mínimo 20% de 70 mil hectares de área cultivada. A cada safra já temos que renovar 20% e mais 20% que foi perdida, então é difícil pensar em curto e médio prazo.
Houve demissão em massa. Há previsão de retomada das contratações?
Em época de safra são em cerca de 5 mil trabalhadoras, já que a colheita mecânica está avançando. Mas com a seca e as demissões devem ter no máximo 800 trabalhadores. E não se sabe se vai e quando vai retomar parte desses empregos, que deveria ocorrer agora em junho para o plantio da cana, mas não temos semente, que é a própria cana. Porque precisamos investimento em recomposição de área.
O Governo anunciou na quinta-feira (16) que irá pagar aos agricultores o valor de R$ 12 por tonelada de cana, limitado a 10 mil toneladas por produtor. Qual a importância dessa subvenção ?
Este ano o Governo chegou a pagar a subvenção que é diferente do subsídio, três parcelas da subvenção em R$ 10,00 por tonelada de cana produzida, mas há um mês isso foi vetado, pela presidenta Dilma Roussef, e com a pressão recebemos esse anúncio com o incremento de R$ 12,00, por tonelada para a safra 2011/2012.
Mas o que muda com a subvenção? Em que esse recurso deve ser usado, para quitar dívidas?
Poderia ser usado para o plantio, mas como deve ser pago a partir de agosto, setembro, já no fim da época de plantio, servirá para saldar algumas dívidas com os bancos ou para a aquisição de insumos. É importante porque dá um fôlego, mas também é paliativo.
E o que seria definitivo?
Estamos pedindo que a cana seja incluída na política de garantia do preço mínimo, várias culturas estão nesse programa, onde se calcula o custo de produção, quanto o produtor recebeu por esta produção na venda para as usinas e, se o custo for maior, essa diferença é paga pelo governo para o produtor não ter prejuízo. Não estaríamos a mercê do livre mercado. Sobretudo no Nordeste que a produção é mais baixa, o solo é mais fraco e convivemos com a seca. Além disso, linhas de financiamento para a irrigação dos canaviais, para aumentar a produtividade e salvar o canavial em momentos como esse. E defendemos a criação de uma Agência Reguladora do setor.
No início do ano, a Asplan apresentou ao Governo uma série de pedidos. O que já saiu do papel?
O decreto de estado de emergência que cabe aos municípios, as prefeituras estão se mobilizando, mas é preciso constituir um comitê de Defesa Civil, entre outros trâmites. Estamos esperando a assinatura de um convênio com a Secretaria de Agricultura (Sape) para máquinas para perfuração dos poços. Pedimos ainda o crédito fiscal de 2,5% sobre o faturamento da cana de açúcar, ou seja, em cima do montante pago pela usina ao produtor seria antecipado esses 2,5% e na hora em que a usina for pagar o ICMS ocorre o abatimento desses 2,5%. O estado faria uma renúncia fiscal, o governo não precisaria desembolsar recursos. Isso está sendo visto entre a Sape e Secretaria de Planejamento.
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