domingo, 13 de outubro de 2013

Memórias compartilhadas

Yuno Silva - repórter 
Colaborou: Cinthia Lopes - editora
Sabe o que é um “meme”? Já ouviu falar ‘nisso’ por aí? Se você circula nas redes sociais invariavelmente já deve ter cruzado com algum, na verdade com vários, talvez centenas! Eles surgem quando e de onde menos se espera, e muito provavelmente já deve ter embarcado na ‘garupa’ de algum mesmo sem saber o significado. Eles, os memes, também saem de cena com a mesma velocidade com que aparecem, e no mês em que se comemora o Dia das Crianças podem ser vistos nos perfis de

anônimos e famosos, gente que trocou fotos atuais por imagens da infância como se estivessem surfando em uma ‘onda’ catártica e coletiva onde pegam carona a presidenta Dilma Rousseff, cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, escritora e atriz Clotilde Tavares e o jornalista da Rolling Stone Antônio Amaral... uma lista extensa que só depende do tamanho de sua rede de amigos, por exemplo, no Facebook, a maior rede social do mundo com mais de 1 bilhão de usuários, e do desprendimento das pessoas em entrar na onda.

O termo “meme” foi cunhado em 1976, pelo biólogo e escritor britânico Richard Dawkins no livro “O Gene Egoísta”, e pode ser entendido como a multiplicação, o compartilhamento de ideias, imagens, sons, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma.

“É difícil termos uma resposta para esse tipo de comportamento. Provavelmente trata-se de uma coisa passageira, tem a ver com uma data específica, o saudosismo de um momento feliz”, analisa o jornalista e psicólogo, especializado em Educação, Laurence Bittencourt. “Não deixa de passar a sensação de rejuvenescimento a partir de um estímulo muito concreto (o Dia das Crianças), e como esses estímulos nunca estão soltos, diria que é uma idealização da juventude; a busca por algo perdido em um tempo que já passou”.

Bittencourt cita Freud para explicar seu pensamento: “Em sua obra extensa, ele trata de ‘sua majestade o bebe’, onde tenta mostrar que os pais, os adultos em geral, por conta das cobranças e pressões cotidianas, tentam idealizar uma perfeição nos filhos.   Pode ser que esses adultos hoje estejam revivendo um pouco isso nas redes sociais e tendo um novo olhar sobre si mesmos”, arrisca.

O fotógrafo profissional Pablo Pinheiro, que utiliza no seu perfil uma imagem meio-a-meio, afirma que a foto tem uma “relação direta com a memória, é um registro emocional. Tem a ver com a identidade do ser humano”. Para ele essa ‘onda’ faz as pessoas lembrarem do tempo quando “não tinham tantas responsabilidades e estavam mais disponíveis”.

Para a professora e jornalista Margarida Knobbe, vai além da infantilização caricata: “Quem sabe servepara lembrarmos que, por já termos sido crianças, precisamos defender as infâncias? Infelizmente, o que se vê por aí, pela vida, pelo mundo, é a supressão de tudo de bom que as crianças representam, numa doida corrida pela adultização precoce... E ouso afirmar: uma criança ainda vive em mim (mesmo que não seja mais como nesta foto). Aliás, como já disse o poeta inglês William Wordsworth (1770-1850), ‘a infância deixa rastros em nossa memória, como sulcos num rosto ou num campo lavrado’. Por isso, a criança é pai do homem".

Reprodução


‘Surfando’ no meme

A reportagem do VIVER lançou um desafio na rede, e perguntou a várias pessoas, que trocaram a foto no perfil por uma imagem antiga, qual o significado do gesto. Quais os sentimentos e as lembranças que aquela determinada foto remetia. Apesar das diferentes motivações, há um elo sentimental em comum: misto de saudade e curiosidade, nostalgia e emoção. Uma tentativa de resgatar a pureza, a ingenuidade e, claro, embarcar junto na brincadeira de ‘viajar no tempo’. Confira alguns depoimentos, e leia a íntegra das colaborações, cerca de 50, na página eletrônica da TRIBUNA DO NORTE (tribunadonorte.com.br):

Depoimentos


“A foto que postei é uma das poucas que tenho da minha infância, pois quando me mudei de São Paulo para Natal o caminhão de mudança foi roubado e lá se foram minhas memórias. Encontrei essa na casa da minha avó, em Catanduva (SP), e fiquei muito emocionada com o achado”, Lyna Malheiros, atriz e tradutora atualmente vivendo no Rio de Janeiro.

“Escolhi uma imagem, aquelas clássicas de escola, incrível, pois o mapa que serve como cenário de fundo ainda tem a Pérsia – que depois veio a ser o Irã. A foto me passa uma certa tristeza e ingenuidade, menino triste que fui durante toda a adolescência; achava que ninguém me compreendia”, Antônio Amaral, jornalista da Rolling Stone.

“Tinha três anos e meio na foto, usava um  vestido vermelho com bolinhas brancas, uma casa toda arrumada para a festa de Natal, até meus cabelos estavam sob controle! Compartilhar esse momento intimo e frágil não foi só uma brincadeira, fui lá no baú dos arquivos rever as poucas fotos da infância e vi que os meus sonhos não estão desfeitos”, Maria Di Lia Oliveira, atriz.

“Quer saber? Minha infância não foi legal, por isso hoje sou escritora. Só botei a foto de criança porque sou doida por meme, e esse é um meme bonitinho”, Clotilde Tavares, escritora.

“Recordar é viver, uma forma de voltar ao tempo e compartilhar coisas que outras pessoas possam se identificar; faz com que as sensações nos remetam a boas lembranças”, Ubirajara Carratu, publicitário e velejador

“Aos 11 anos tinha sonhos que beiravam a utopia e acreditava neles. O amor pelos animais e a crença na mística das verdadeiras amizades já existiam. De onde se conclui que não cresci tanto. Ainda bem!”, Margot Ferreira, jornalista.

“Criança é pureza,  é sábia, é natural. Precisamos resgatar esses valores”, Beto Neves, estilista da marca Complexo B.

“Essa onda remete ao fato que precisamos olhar para trás e ver o quanto o tempo nos afetou emocionalmente. Hoje, a luta pela vida nos torna intolerantes, maliciosos, e não conseguimos mais ver a inocência nas pessoas”, Chico Bethoven, músico.

“Essa fase de criança traz lembranças ótimas que eu me permito reviver todos os dias com meus sobrinhos. Sabe aquela frase ‘parece que não teve infância?’. Comigo é bem ao contrário, tive muita, intensa e feliz e adoro reviver isso com a criançada”, Monica Mac Dowell, produtora.

“Espero que essa onda nos deixe ligados, conectados, logados, linkados com a causa dos Direitos Humanos das crianças e adolescentes ainda tão violadosça”, Fabio Potiguar Santos, padre.
As crianças

Alceu Valença, músico
Alex Kidd, designer e fotógrafo
Alex Régis, fotógrafo
Ana Cadengue, jornalista
Ana Lira, produtora cultural
Anderson Leão, bailarino e diretor artístico do Gira Dança
Antônio Amaral, jornalista da revista Rolling Stone
Antônio Nahud, escritor e jornalista
Bárbara Dieb, publicitária
Beto Neves, estilista da grife Complexo B
Buca Dantas, cineasta
Carlos Magno, designer gráfico
Carol Reis, bailarina e jornalista
Chico Bethoven, músico
Cinthia Lopes, jornalista
Cledivânia Pereira, jornalista
Clotilde Tavares, escritora e atriz
Daniel Dantas Lemos, professor universitário e jornalista
Daniel Rezende, produtor cultural do Sesc-RN
Danielle Gonçalves, estilista
Dilma Rousseff, presidenta
Elen Fechine, professora
Eloísa Prates, professora
Fábio Farias, jornalista
Fábio Lima, produtor cultural da Banda do Siri 
Fábio Potiguar Santos, padre
Fernando Faria, diretor de tecnologia do Moviecom
Filipe Mamede, jornalista
Franklin Garcia, servidor público municipal
Franklin Medeiros, músico
Gabriela Freire, jornalista
Goimar Dantas, escritora
Gustavo Farache, jornalista
Halder Gomes, cineasta cearense, diretor do filme Cine Holiúdy
Henrique Wanderley, empresário e compositor
Jean Sartief, poeta visual e jornalista
Jomardo Jomas, produtor cultural do Festival Mada e assessor parlamentar
Júlio Pinheiro, jornalista
Lau Siqueira, escritor e poeta paraibano
Lene Macêdo, cantora
Léo Carioca, fotógrafo, DJ e professor de Biologia
Leonardo Dantas, jornalista e presidente da Fundação Rampa
Lyna Malheiros, atriz e tradutora no RJ
Magão Duarte, DJ
Marcello Bulhões, professor
Marcílio Amorim, ator e produtor cultural da Elenco Mosh
Margareth Grilo, jornalista
Margarida Knobbe, jornalista
Margot Ferreira, jornalista
Maria di Lia Oliveira, atriz
Marines Fornaciari, jornalista
Matheus Magalhães, jornalista
Mônica Longo, atriz Cia Mútua (SC)
Mônica Mac Dowell, produtora da cantora Valéria Oliveira 
Nathy Passos, coordenadora de desenvolvimento institucional do GACC
Nilbertt da Matta, locutor e publicitário
Pablo Capistrano, filósofo, escritor e professor
Rafael Siri Araújo, jornalista do Som sem Plugs
Ramilla Souza, jornalista
Rejane Souza, professora
Rilder Medeiros, jornalista e empresário
Rodrigo Bico, ator
Ruy Campos, publicitário
Sara Vasconcelos, jornalista
Sheyla Azevedo, jornalista
Stefania Lopes, diagramadora
Ubirajara Carratu, publicitário e velejador
Victor Cavalcante, produtor do Saga Entretenimento
Yara Okubo, jornalista
Yuno Silva, jornalista

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