Extirpada do processo eleitoral de 2014, governador trata deputada petista como "nossa senadora"
Foi encarado por
muita gente como “ato falho”, ou seja, um pequeno deslize, a forma com
que a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) tratou a deputada federal
adversária Fátima Bezerra (PT), nessa sexta-feira (21), em evento
ocorrido em Natal.
Fátima,
com a "Rosa", contra Wilma? Sim, por que não?
(Foto Tribuna do Norte em
10 de março de 2012, em que aparece também o então ministro da
Educação, Aloízio Mercadante)
No lançamento da ”Rede Simples”, no
Sebrae, com a presença do ministro Guilherme Afif Domingos, a
governadora utilizou a primeira pessoa do plural (nossa) para tratar a
parlamentar, acrescentando uma “nomeação” popular ao possessivo:
- (…) Quero cumprimentar aqui a mulher, Fátima Bezerra, nossa Senadora.
Ato falho?
De maneira alguma. Manifestação de tendência.
Rosalba vive um inferno astral como
administradora e no campo político. Transformou-se num estorvo para a
maioria dos caciques, em especial aqueles que a apoiaram na eleição ao
Governo do Estado em 2010.
É pouco provável até que seja candidata à
reeleição, por força de questão judicial (inelegibilidade). Se
insistir, não deve passar na convenção do DEM, que botou como prioridade
a eleição e reeleição de seus candidatos à Assembleia Legislativa e
Câmara Federal.
Por que, então, esse afago em Fátima Bezerra, sua adversária histórica?
Simples.
Fátima concorrerá ao Senado da
República, tendo como principal dificuldade ao projeto, a concorrência
da ex-governadora Wilma de Faria (PSB).
A deputada (ou “senadora”, segundo
Rosalba) é sua adversária. Wilma, não. Transformou-se em inimiga
política, imersa em picuinhas e troca de ofensas veladas ou explícitas.
Ecossistema político
Proclamar Fátima Bezerra, que do ponto
de vista ideológico está diametralmente oposta à conduta e pensamento
político seu, foi um recado de Rosalba. Recado aos senadores José
Agripino (DEM) e Garibaldi Filho (PMDB), à própria Wilma e ao deputado
federal e pré-candidato a governador Henrique Alves (PMDB).
Acuada, excluída e extirpada do topo da cadeia alimentar do ecossistema político potiguar, Rosalba pode agir como uma força centrífuga, triturando tudo em sua volta.
Com o resto de capital que lhe resta,
sobretudo em seu berço político e cidadela, Mossoró, a “Rosa” tende a
apostar num nome que lhe seja “menos ruim”. Fátima Bezerra, é o caso.
Tivemos no passado (1982), a criação dos
votos “camarão” e “cinturão”, quando o instituto do “voto-vinculado”
obrigava o eleitor a votar em todos os candidatos de um mesmo partido.
Era um casuísmo “legal” criado pelo regime militar em seus últimos dias
de poder, para manutenção do “voto de cabresto”.
Aluízio e Vingt
Além disso, havia a faculdade da
“sublegenda”, outra armação, que permitia que o mesmo partido pudesse
ter mais de um candidato a prefeito.
Em Mossoró, rompido com o primo e
ex-governador Tarcísio Maia (PDS), o deputado federal e líder do
rosadismo (até então um grupo praticamente monolítico), Vingt Rosado
(PDS), pregou que ninguém votasse na cabeça de chapa, deixando-a em
branco.
Como não podia votar em Aluízio Alves
(PMDB), os seguidores de Vingt anulariam o voto a governador que era
imposto por Tarcísio, com a candidatura do filho José Agripino (PDS).
Eis o “voto camarão”, cortando a cabeça.
Em troca, Aluízio defendeu o “voto
cinturão”: seus eleitores deveriam deixar em branco o voto a prefeito
(que ocorria na mesma eleição).
Pelo menos em Mossoró, o protesto deu
certo. Aluízio foi o nome a governador mais votado com 21.037 votos
(40,76%), com Agripino ficando em segundo lugar com 17.571 (34,05%). No
estado, o “bacurau” perdeu por mais de 107 mil votos de maioria.
A prefeito, o irmão de Vingt Rosado,
Dix-huit Rosado (PDS), foi eleito pela segunda vez ao cargo com 21.510
votos (41,68%) e o pemedebista que na prática não teve apoio de Aluízio,
João Batista Xavier, foi o segundo mais votado, com 15.466 votos
(29,97%). Canindé Queiroz, da sublegenda do PDS, lançado para puxar
votos para Agripino, teve 4.388 votos (8,50%).
Eleições a prefeito de Mossoró em 1982 (Fonte: Blog Carlos Santos):
- Dix-huit Rosado (PDS) – 21.510 (41,68%);
- João Batista Xavier (PMDB) – 15.466 (29,97%);
- Canindé Queiroz (PDS) – 4.388 (8,50%);
- Mário Fernandes (PT) – 428 (0,83%);
- Paulo R. Oliveira (PTB) – 48 (0,09%);
- Brancos – 8.145 (15,79%);
- Nulos – 1.621 (3,14%);
- Maioria Pró-Dix-huit – 6.044 (11,71%).
- João Batista Xavier (PMDB) – 15.466 (29,97%);
- Canindé Queiroz (PDS) – 4.388 (8,50%);
- Mário Fernandes (PT) – 428 (0,83%);
- Paulo R. Oliveira (PTB) – 48 (0,09%);
- Brancos – 8.145 (15,79%);
- Nulos – 1.621 (3,14%);
- Maioria Pró-Dix-huit – 6.044 (11,71%).
O eleitorado habilitado ao voto era de
67.041, em 275 secções. Compareceram 51.606 (76,98%) eleitores. As
abstenções foram de 15.435 (23,02%) votantes.
Para as eleições de 2014, o eleitor está
livre para misturar, votando em quem bem desejar de cabo a rabo. Não há
voto vinculado ou sublegenda.
O “rosalbista” pode ficar sem uma
preferência ao Senado, diante do racha no próprio DEM que termina de
afundar Rosalba. Não significa dizer que ela fique sem opção. Fátima
pode ser uma forma de vindita de Rosalba, ajudando a não eleger Wilma,
de quem já foi aliada no passado nos anos 80 e início dos anos 2000.
Estranho?
Nem um pouco.
Lembre-se: “a política é dinâmica”.
A frase é surrada, mas continua
atualíssima na política caprichosa e sinuosa do Rio Grande do Norte,
onde o feio é perder. O próprio Vingt Rosado costumava dizer que voto de
aliado e de adversário (ou “bandido”) tinha o mesmo valor.
Aluízio Alves e Vingt Rosado tiveram
embates homéricos e nem sempre muito leais. Mas em determinado ponto da
história no século XX, passaram à composição à margem da lei e, em
seguida, formalizada em comunhão numa única sigla, o PMDB, em meados dos
anos 80.
Portanto…
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