sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Uma noite de grandes personagens

Yuno Silva
 repórter

Escritor e jornalista Mário Magalhães traz à tona a história do intrépido guerrilheiro que foi deputado federal, poeta e estrategista da guerrilha no BrasilPoesia marginal, a polêmica das biografias e dois personagens controversos do cenário político brasileiro estarão no centro dos debates promovidos pelo Festival Literário da Pipa nesta sexta-feira (8), a partir das 19h, na Tenda dos Autores. Três momentos estão programados para hoje, todos com convidados cariocas:
o poeta Chacal abre a noite tecendo impressões sobre a dobradinha “Literatura e resistência”; o historiador e escritor Rodrigo Lacerda, neto do político e jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), apresenta “A Saga dos Lacerda: Do fim do Império a Era Vargas”; e o jornalista e biógrafo Mário Magalhães revela a frenética trajetória do guerrilheiro, político e poeta Carlos Marighella (1911-1969).ArquivoEscritor e jornalista Mário Magalhães traz à tona a história do intrépido guerrilheiro que foi deputado federal, poeta e estrategista da guerrilha no Brasil
As conversas são sempre acompanhadas por potiguares, incumbidos de provocar o debate, e é bom que se diga que as atividades do Flipipa – todas gratuitas – extrapolam a programação principal. O evento estende sua ações para trabalhar na formação de novos leitores, oferece oficinas de xilogravura, contação de história, roda de prosa, biblioteca itinerante, lançamento de livros e apresentações artísticas (confira programação).

Quem fecha a noitada literária de hoje é o jornalista Mário Magalhães. Escoltado pelo também jornalista Cassiano Arruda Câmara, Magalhães revela detalhes da vida frenética de Marighella e comenta a recente polêmica da censura prévia imposta às biografias. “A figura de Carlos Marighella (1911-1969) provoca sentimentos e opiniões opostos. Em torno da trajetória do político, guerrilheiro e poeta há um pacto inaceitável para sumir com seu nome da história. Não defendo que os manuais de história o promovam ou ataquem, mas que contem quem foi. Enquanto ele estiver censurado nos livros escolares, continuará a ser um brasileiro maldito”, analisa.

Mário pesquisou seu personagem por nove anos, entrevistou 256 pessoas; e teve acesso a mais de 60 mil páginas de documentos, na maioria secreta na origem, garimpados em 32 arquivos públicos e privados do Brasil, Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. 

O brasileiro ainda conhece pouco seus heróis (ou anti-heróis)? 
Pouquíssimo. Nas andanças país afora, conversando sobre a biografia “Marighella”, impressionei-me com a imensa vontade que os brasileiros têm de conhecer a sua história. E conhecer a história é visitar tanto heróis quanto vilões. Muitos personagens são um e outro, às vezes nem um nem outro, a depender do olhar de quem os vê.

O que mais te atraiu na trajetória de Carlos Marighella? 
A vida frenética de Marighella é o sonho de todo repórter e contador de histórias. É legítimo amar ou odiar Marighella, mas é impossível ficar indiferente à trajetória trepidante que ele teve, como um dos dez brasileiros de maior projeção no exterior no século 20 (excluindo artistas e desportistas). Outro encanto do personagem é que por meio dele é possível revisitar 40 anos alucinantes do Brasil e do mundo, entre as décadas de 1930 e 1960. Perfilei personagens esquecidos, que merecem biografias próprias. E reconstituí episódios como o do levante comunista de 1935. A propósito, o que denominei Comuna de Natal é o eixo de um capítulo do livro, “A revolução que não houve”.  

Que lições Marighella deixou e que merecem ser exercitadas? 
Isso não cabe a mim dizer, e sim aos leitores, tanto os que se identificam como os que rejeitam Marighella. Como biógrafo, eu conto o que ele fez, disse e, na medida do possível, pensou. Ele foi especialmente um homem de ação, mais do que um pensador. Sua principal herança política é a ideia de que é preciso ir para a ação. É curioso como, 45 anos depois de ter sido morto, Marighella suscita mais amor e ódio que nos seus tempos de maior exposição pública.

Enfrentou dificuldades para realizar a pesquisa do livro, como a necessidade de filtrar informações tendenciosas? 
Muitíssimas, derivadas da seguinte combinação: por um lado, certa historiografia oficial tentou apagar Marighella da história nacional, até hoje ele está ausente dos livros escolares por exemplo; por outro, ele eliminou suas pegadas, por necessidade de sobrevivência, pois passou boa parte da vida clandestino, fugindo da polícia. Outro desafio, literário, foi não transformar a apuração monumental num relato enfadanho e mecânico. Busquei uma narrativa de tirar o fôlego, em um livro de ação, assim como a vida de Marighella foi de tirar o fôlego.

E a polêmica das biografias não autorizadas, qual sua opinião sobre o assunto? Uma personalidade pública tem o direito de controlar o que quer que seja contado a seu respeito, mesmo que isso implique em esconder fatos reais? 
É um direito dos povos conhecer a sua história. O Código Civil de 2002 transformou o Brasil na única grande democracia do planeta a permitir censura prévia e proibição de biografias não autorizadas, além de outras produções jornalísticas e culturais. A censura prévia é obscurantista e ofende a liberdade de expressão e o direito à informação, assegurados pela Constituição. A legislação em vigor chancela aberrações como a seguinte: se aparecer um filho de Hitler no Brasil, ele teria base legal para proibir biografias contando as atrocidades que o pai cometeu. Não é impondo biografia chapa-branca que a sociedade brasileira conhecerá o seu passado. A censura agride a democracia.

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