sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Combate ao celibato: Padre larga a batina por causa de uma mulher e deixa carta que expressa um sentimento de amor extraordinário

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O que se comenta na cidade São João do Rio do Peixe, sertão da Paraíba, é a decisão do padre Francisco Batista de Sousa Neto.

Nesta terça-feira (14/10) ele abandonou a vida sacerdotal e assumiu seu amor por uma mulher. O padre deixou uma carta aberta.

Uma decisão, que segundo ele, não é de agora. “O que fiz é fruto da coerência, pois não acha correto viver de forma forjada no celibato”. Francisco também administrava a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, do município.


A carta é uma declaração de amor, de respeito e de prudência. Eis a carta na íntegra:


"Venho, através desta carta, expressar os meus sentimentos diante da minha escolha.

De início, oportuno anotar, que não interpretem estas palavras como justificativa, pois não preciso apresentá-la, até porque a escolha é individual, pessoal e assim como fiz livremente para ser padre posso também livremente deixar.

Deve-se entender que cada um tem um limite de ação, que existe o livre arbítrio.


Neste sentido, desarmem-se de suas concepções religiosas preconceituosas, pois a vida é feita de escolhas.


Após um longo processo solitário de discernimento, decidi abandonar o ministério presbiteral e a condição de administrador da Paróquia Nossa Senhora do Rosário em São João do Rio do Peixe-PB.


Decidi viver um grande amor.


Um amor criado por Deus vivenciado entre um homem e uma mulher. Um amor divinamente humano.


Espero que compreendam que não estou fazendo uma troca, pois o amor a Deus e ao seu Reino sempre estará em primeiro lugar na minha vida e até porque o amor é onde Deus está, é o que Deus é e não é possível ir contra isto.


Apenas quero ser coerente e verdadeiro.


Não vai de encontro aos meus princípios viver de forma forjada a disciplina do celibato a qual prometi no dia da minha ordenação viver.


Não posso enganar a mim mesmo e ao Povo de Deus.


É inconteste que não foi fácil o caminho de discernimento e tenho consciência que nem será o de recomeçar, mas a vida é feita de escolhas e as escolhas fazem parte da vida daqueles que são livres, como Deus nos criou.


Para ser fiel a Deus e a si mesmo é preciso mudar.


As decisões, são sempre difíceis de serem tomadas, corremos o risco de sermos crucificados, apedrejados, mas no fim, a misericórdia divina supera toda atitude de preconceito e de não amor.


O certo é que não podemos viver sempre em indecisões atrasando o futuro que nos espera e, mais tarde, arrependidos de não termos feito o que deveríamos.


Viver requer coragem. E tem coisas que pulsam no coração em que nem mesmo a razão é capaz de explicar.


O maior dom do ser humano é a liberdade para fazer escolhas. Viver é uma sequência de escolhas certas ou erradas com consequências positivas ou negativas para o envolvido e os demais.


Não há dúvida de que as escolhas são o principal fator determinante da vida.


Confesso que não estava prevista no meu projeto de vida esta mudança.


Desde a tenra idade cultivei o sonho de ser padre, em poder servir ao Povo de Deus, e assim me dediquei a este legado com um longo tempo de preparação.


Não me arrependo se quer uma fração de segundo, porque vivi intensamente a minha escolha.


Nos quase seis anos de ordenação presbiteral, sempre fui feliz, cada momento foi vivido com amor exerci a minha missão com muita verdade e comprometimento.


Porém, nos últimos anos despertou em meu ser a necessidade de concretizar algo de muito valor que já tinha admiração na fase infanto-juvenil: a vida conjugal.


Isso foi despertado em mim e confesso que não foram as poucas vezes que tentei focar minha vida naquilo que eu havia escolhido primeiro, mas chegou um tempo em que a minha humanidade não suportava mais.


Alguns podem até pensar que foi uma crise vocacional, sou sincero e convicto ao dizer que não, porque se fosse para continuar sendo padre e ao mesmo tempo constituir uma família pra mim nada mudaria.


Compreendo que o celibato é uma disciplina da Igreja e que deve ser observado por aqueles que livremente escolhem esta vocação.


No início do meu ministério até pensei que seria possível viver por toda a vida, mas chegou o momento em que a minha humanidade falou mais forte.


Realmente o celibato é um dom e nem todos são capazes de viver e entender.

Admiro muito aqueles que são capazes de viver.

Acredito que a não vivência do celibato não impede de exercer e nem mácula este ministério.

Contudo, é uma disciplina da Igreja e que deve ser cumprida por aqueles que escolhem livremente vivê-la.

Não sou eu quem vai mudar a disciplina, eu quem devo mudar. Então, me debrucei nesta reflexão, concluindo que não poderia ser incoerente com a minha escolha.

Decidi então recomeçar a minha vida, rompendo com meus sonhos e esperanças e de tantos outros que depositaram em mim.


Que fique claro, que em momento algum nesta nova escolha desejei ou articulei magoar alguém.


Quantas vezes quis dominar o meu coração, mas isso é impossível quando sentimos um amor verdadeiro sem malícias e pretensões.


Peço perdão se alguém sentiu ferido e atingido por mim.


O amor é amor quando existe reciprocidade e isso eu senti. Nada pode contra e ninguém pode resistir ao amor.


É o último grau de evolução, é onde Deus está, é o que Deus é e não é possível ir contra isto.

Com imensa satisfação, continuarei servindo a Igreja, assumindo o meu batismo como discípulo e missionário de Jesus Cristo, e, exercendo o meu sacerdócio batismal, celebrando, agora, uma liturgia doméstica, culto a Deus prestado ao Senhor em casa, oferenda religiosa da vida conjugal, pondo em prática o plano de amor que Deus confiou ao homem e mulher.

Peço oração e compreensão de todos que ao longo da caminhada cruzaram o meu caminho.


Preservarei os mesmos sentimentos e carinho por todos. Agradeço àqueles e àquelas que foram ombro amigo aonde eu descansei, desabafei e por muitas vezes chorei neste meu itinerário de discernimento.


Tomo esta decisão na firme esperança e na sinceridade de coração.


Saibam que não desisti da caminhada, apenas mudei a rota, na certeza de que todas tem o mesmo destino.


Sejamos felizes e que Deus nos abençoe!


Cordialmente, Francisco Batista de Sousa Neto".




Blog do Renato Diniz 

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