Iniciativa faz parte de um projeto para ressocialização de presos, que também ocorre em outras prisões do país
Na fábrica em Contagem, os presos fabricam 400 bolas por dia, recebendo 543 reais ao mêsHugo Alves costumava jogar futebol em um time profissional. Ele continua ligado ao esporte,
mas não do jeito que imaginava. Agora seu uniforme é uma camisa e uma calça vermelhas, e ele fabrica bolas de futebol em uma fábrica na prisão.
— Eu preferia estar jogando bola, ao invés de fabricá-las—, afirmou Alves, de 31 anos, que está cumprindo uma pena de cinco anos por tráfico de drogas. E acrescentou num sorriso pesaroso, — Pelo menos eu estou na mesma área —.
Alves é um dos 80 prisioneiros que fazem bolas de futebol na penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, nos arredores de Belo Horizonte, uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil.
A fábrica de bolas de futebol fica dentro de um prédio de blocos de concreto com telhado de metal, localizado no interior dos muros da prisão e circundado por uma cerca de metal com arame farpado. Quarenta prisioneiros trabalham oito horas por dia, cinco dias por semana, fazendo as bolas. Outros 40 prisioneiros trabalham em suas celas, costurando a cobertura das bolas, em outro processo de manufatura.
A fábrica foi aberta em 2011 como parte de uma iniciativa para aumentar o moral dos presos e prepará-los para a vida após a prisão, além de reduzir as terríveis taxas de superlotação. Outros programas permitem que os prisioneiros de instituições federais tirem dias de suas sentenças ao participarem de programas de alfabetização, da leitura de clássicos da literatura e da produção de relatórios de leitura. Em uma cadeia na cidade de Santa Rita do Sapucaí, os presos andam em bicicletas ergonômicas ligadas a baterias que fornecem energia suficiente para iluminar uma praça da cidade.
Na fábrica em Contagem, os presos fabricam 400 bolas por dia, recebendo 543 reais ao mês. Um quarto do dinheiro é destinado ao Estado, 50 por cento aos presos ou suas famílias, e um quarto a uma conta de onde podem sacar o dinheiro após a saída. Para cada três dias de trabalho, um dia é retirado da sentença dos presos.
As bolas feitas na prisão não são usadas na Copa do Mundo. A bola oficial é fabricada no Paquistão pela Adidas para as 64 partidas do campeonato. A bola da Copa tem nome próprio, Brazuca, e conta com um milhão de seguidores no Twitter. Antes do evento, a Brazuca passou por um teste de qualidade envolvendo 600 jogadores profissionais e 30 equipes de três continentes.
As bolas feitas na prisão para uma empresa chamada Trivella também são utilizadas por jogadores profissionais, no campeonato estadual de Minas Gerais onde fica a prisão, mas são muito menos visíveis. Elas também vão parar nos jogos recreativos realizados na penitenciária e em partidas amadoras fora da cadeia, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
As bolas fabricadas pela Trivella, costuradas à mão e à máquina, consistem em um balão de látex enrolado por uma cobertura de nylon e recoberto por painéis de poliuretano termicamente moldados e pintados com o logo da empresa em diversas outras marcações. Durante várias etapas do processo, as partes da cobertura da bola ficam sobre placas como biscoitos frescos, e o balão interno é pendurado em ganchos como melões.
Os presos contam que ficam orgulhosos em saber que as bolas são usadas no campeonato estadual da primeira divisão.
Alguns brincavam dizendo que a qualidade era a mesma da Brazuca.
— Essa é a melhor bola—, afirmou Alves, que afirmou ter jogado nas divisões de base da Argentina, Itália e Peru.
Fazer as bolas de futebol é um dos trabalhos mais disputados da cadeia, que são raros em todo o país. Apenas 120 presos em quatro penitenciárias do estado estão fazendo bolas, de acordo com as autoridades.
Alves contou que esperou por mais de um ano pela contratação.
A maioria dos trabalhadores usa máscaras para se protegerem contra os gases liberados pela cola e por outros produtos químicos. Às vezes, eles ganham o direito de enviar bolas para parentes e amigos. Graciano Antonio Barros da Mata, um dos trabalhadores da prisão, personalizou uma bola com o nome do seu filho de 14 anos.
A melhor coisa a respeito do trabalho, afirmaram da Mata e Alves, é que ele serve de remédio para o tédio diário da vida atrás das grades em um país onde as prisões são famosas pela violência generalizada e pelo tratamento inadequado.
— É muito bom sair da cela e vir para cá —, afirmou da Mata, de 37 anos, que trabalha há 16 meses na fábrica e está cumprindo oito anos de prisão por assassinato. — O tempo passa mais rápido e você para de pensar coisas ruins—.
Nesse país apaixonado pelo futebol, ao menos para um punhado de detentos, o esporte nacional se estende até mesmo às iniciativas em favor da reforma do sistema prisional.
— Você pega uma coisa que faz parte do dia a dia no Brasil, o futebol, e associa ele como essa questão social, a questão do sistema prisional, que está esquecida há muitos anos, e agora volta à tona, e liga ela ao trabalho dos detentos. É fantástico que possamos participar um pouco da vida do país, que é esse respeito pelo futebol —, afirmou Murilo Andrade Oliveira, secretário da administração prisional de Minas Gerais.
Os críticos dos programas de trabalho na prisão afirmam que os detentos são vulneráveis à exploração como mão de obra barata e que a fabricação de bolas de futebol não os prepara para a vida lá fora.
— Não existe trabalho para quem faz bolas de futebol fora da prisão—, afirmou Luis Carlos Valois, juiz da vara criminal no estado do Amazonas. — A empresa se beneficia demais, é claro. As condições dentro das prisões são muito ruins e os detentos costumam ser pobres e vulneráveis. Eles dirão sim para qualquer coisa que essas empresas oferecerem. A empresa, por sua vez, tira proveito dessa miséria —.
As condições nas cadeias brasileiras são há muito tempo um problema nacional. O país possui cerca de 550 mil detentos, 66% mais que a capacidade do sistema, incluindo 175 mil em regime de prisão preventiva, de acordo com um relatório de 2013 da Human Rights Watch. Os índices de encarceramento do país cresceram 40% nos últimos cinco anos, de acordo com o relatório.
Ao menos um prisioneiro famoso em todo o país trabalhou fazendo bolas de futebol na Penitenciária Nelson Hungria. Bruno Fernandes, de 29 anos, era goleiro e capitão do Flamengo e um sério candidato à Seleção Brasileira para a Copa do Mundo deste ano. No ano passado, o ex-jogador recebeu uma sentença de 22 anos de prisão por ser o mandante do assassinato de sua ex-namorada, em um caso terrível que ganhou a atenção de todo o país.
Os promotores afirmam que Bruno orquestrou o assassinato para não ter que pagar a pensão alimentar. O corpo de sua namorada nunca foi encontrado e acredita-se que ele tenha sido lançado aos cães do ex-jogador. Ele está preso desde 2010 por conta das acusações de sequestro relacionadas.
Porém, de acordo com as leis brasileiras que visam reintegrar os detentos à sociedade, Bruno assinou um contrato com uma equipe da segunda divisão de Minas Gerais e deseja voltar a jogar em um programa de trabalho da prisão. Um juiz rejeitou o pedido inicial, mas o goleiro Bruno será transferido em breve para uma cadeia mais próxima ao centro de treinamentos do time e espera tentar novamente um retorno à carreira.
No escritório da fábrica, Tarcisio R. Cruz, presidente da Trivella, bolas de futebol e vôlei enchem as prateleiras. A empresa construiu a fábrica e paga as contas de água e luz, mas poupa nos salários, nas horas-extra e nos impostos que deveriam incidir sobre empregos mais convencionais. Além disso, a empresa não é obrigada a pagar o décimo terceiro ao final do ano.
A Trivella fatura cerca de 430 mil reais ao mês com a venda das bolas de futebol – todas as quais são feitas nas prisões –, mas gasta menos de 45 mil com a folha de pagamentos, de acordo com Cruz. Ele afirmou que não acreditava que estivesse explorando os detentos.
— Esses trabalhadores estão em uma situação 10 vezes melhor que a dos trabalhadores do lado de fora—, afirmou Cruz. — Eles têm medo de perder o emprego e têm muita vontade de trabalhar. Nunca temos qualquer problema por lá—.
mas não do jeito que imaginava. Agora seu uniforme é uma camisa e uma calça vermelhas, e ele fabrica bolas de futebol em uma fábrica na prisão.
— Eu preferia estar jogando bola, ao invés de fabricá-las—, afirmou Alves, de 31 anos, que está cumprindo uma pena de cinco anos por tráfico de drogas. E acrescentou num sorriso pesaroso, — Pelo menos eu estou na mesma área —.
Alves é um dos 80 prisioneiros que fazem bolas de futebol na penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, nos arredores de Belo Horizonte, uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil.
A fábrica de bolas de futebol fica dentro de um prédio de blocos de concreto com telhado de metal, localizado no interior dos muros da prisão e circundado por uma cerca de metal com arame farpado. Quarenta prisioneiros trabalham oito horas por dia, cinco dias por semana, fazendo as bolas. Outros 40 prisioneiros trabalham em suas celas, costurando a cobertura das bolas, em outro processo de manufatura.
A fábrica foi aberta em 2011 como parte de uma iniciativa para aumentar o moral dos presos e prepará-los para a vida após a prisão, além de reduzir as terríveis taxas de superlotação. Outros programas permitem que os prisioneiros de instituições federais tirem dias de suas sentenças ao participarem de programas de alfabetização, da leitura de clássicos da literatura e da produção de relatórios de leitura. Em uma cadeia na cidade de Santa Rita do Sapucaí, os presos andam em bicicletas ergonômicas ligadas a baterias que fornecem energia suficiente para iluminar uma praça da cidade.
Na fábrica em Contagem, os presos fabricam 400 bolas por dia, recebendo 543 reais ao mês. Um quarto do dinheiro é destinado ao Estado, 50 por cento aos presos ou suas famílias, e um quarto a uma conta de onde podem sacar o dinheiro após a saída. Para cada três dias de trabalho, um dia é retirado da sentença dos presos.
As bolas feitas na prisão não são usadas na Copa do Mundo. A bola oficial é fabricada no Paquistão pela Adidas para as 64 partidas do campeonato. A bola da Copa tem nome próprio, Brazuca, e conta com um milhão de seguidores no Twitter. Antes do evento, a Brazuca passou por um teste de qualidade envolvendo 600 jogadores profissionais e 30 equipes de três continentes.
As bolas feitas na prisão para uma empresa chamada Trivella também são utilizadas por jogadores profissionais, no campeonato estadual de Minas Gerais onde fica a prisão, mas são muito menos visíveis. Elas também vão parar nos jogos recreativos realizados na penitenciária e em partidas amadoras fora da cadeia, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
As bolas fabricadas pela Trivella, costuradas à mão e à máquina, consistem em um balão de látex enrolado por uma cobertura de nylon e recoberto por painéis de poliuretano termicamente moldados e pintados com o logo da empresa em diversas outras marcações. Durante várias etapas do processo, as partes da cobertura da bola ficam sobre placas como biscoitos frescos, e o balão interno é pendurado em ganchos como melões.
Os presos contam que ficam orgulhosos em saber que as bolas são usadas no campeonato estadual da primeira divisão.
Alguns brincavam dizendo que a qualidade era a mesma da Brazuca.
— Essa é a melhor bola—, afirmou Alves, que afirmou ter jogado nas divisões de base da Argentina, Itália e Peru.
Fazer as bolas de futebol é um dos trabalhos mais disputados da cadeia, que são raros em todo o país. Apenas 120 presos em quatro penitenciárias do estado estão fazendo bolas, de acordo com as autoridades.
Alves contou que esperou por mais de um ano pela contratação.
A maioria dos trabalhadores usa máscaras para se protegerem contra os gases liberados pela cola e por outros produtos químicos. Às vezes, eles ganham o direito de enviar bolas para parentes e amigos. Graciano Antonio Barros da Mata, um dos trabalhadores da prisão, personalizou uma bola com o nome do seu filho de 14 anos.
A melhor coisa a respeito do trabalho, afirmaram da Mata e Alves, é que ele serve de remédio para o tédio diário da vida atrás das grades em um país onde as prisões são famosas pela violência generalizada e pelo tratamento inadequado.
— É muito bom sair da cela e vir para cá —, afirmou da Mata, de 37 anos, que trabalha há 16 meses na fábrica e está cumprindo oito anos de prisão por assassinato. — O tempo passa mais rápido e você para de pensar coisas ruins—.
Nesse país apaixonado pelo futebol, ao menos para um punhado de detentos, o esporte nacional se estende até mesmo às iniciativas em favor da reforma do sistema prisional.
— Você pega uma coisa que faz parte do dia a dia no Brasil, o futebol, e associa ele como essa questão social, a questão do sistema prisional, que está esquecida há muitos anos, e agora volta à tona, e liga ela ao trabalho dos detentos. É fantástico que possamos participar um pouco da vida do país, que é esse respeito pelo futebol —, afirmou Murilo Andrade Oliveira, secretário da administração prisional de Minas Gerais.
Os críticos dos programas de trabalho na prisão afirmam que os detentos são vulneráveis à exploração como mão de obra barata e que a fabricação de bolas de futebol não os prepara para a vida lá fora.
— Não existe trabalho para quem faz bolas de futebol fora da prisão—, afirmou Luis Carlos Valois, juiz da vara criminal no estado do Amazonas. — A empresa se beneficia demais, é claro. As condições dentro das prisões são muito ruins e os detentos costumam ser pobres e vulneráveis. Eles dirão sim para qualquer coisa que essas empresas oferecerem. A empresa, por sua vez, tira proveito dessa miséria —.
As condições nas cadeias brasileiras são há muito tempo um problema nacional. O país possui cerca de 550 mil detentos, 66% mais que a capacidade do sistema, incluindo 175 mil em regime de prisão preventiva, de acordo com um relatório de 2013 da Human Rights Watch. Os índices de encarceramento do país cresceram 40% nos últimos cinco anos, de acordo com o relatório.
Ao menos um prisioneiro famoso em todo o país trabalhou fazendo bolas de futebol na Penitenciária Nelson Hungria. Bruno Fernandes, de 29 anos, era goleiro e capitão do Flamengo e um sério candidato à Seleção Brasileira para a Copa do Mundo deste ano. No ano passado, o ex-jogador recebeu uma sentença de 22 anos de prisão por ser o mandante do assassinato de sua ex-namorada, em um caso terrível que ganhou a atenção de todo o país.
Os promotores afirmam que Bruno orquestrou o assassinato para não ter que pagar a pensão alimentar. O corpo de sua namorada nunca foi encontrado e acredita-se que ele tenha sido lançado aos cães do ex-jogador. Ele está preso desde 2010 por conta das acusações de sequestro relacionadas.
Porém, de acordo com as leis brasileiras que visam reintegrar os detentos à sociedade, Bruno assinou um contrato com uma equipe da segunda divisão de Minas Gerais e deseja voltar a jogar em um programa de trabalho da prisão. Um juiz rejeitou o pedido inicial, mas o goleiro Bruno será transferido em breve para uma cadeia mais próxima ao centro de treinamentos do time e espera tentar novamente um retorno à carreira.
No escritório da fábrica, Tarcisio R. Cruz, presidente da Trivella, bolas de futebol e vôlei enchem as prateleiras. A empresa construiu a fábrica e paga as contas de água e luz, mas poupa nos salários, nas horas-extra e nos impostos que deveriam incidir sobre empregos mais convencionais. Além disso, a empresa não é obrigada a pagar o décimo terceiro ao final do ano.
A Trivella fatura cerca de 430 mil reais ao mês com a venda das bolas de futebol – todas as quais são feitas nas prisões –, mas gasta menos de 45 mil com a folha de pagamentos, de acordo com Cruz. Ele afirmou que não acreditava que estivesse explorando os detentos.
— Esses trabalhadores estão em uma situação 10 vezes melhor que a dos trabalhadores do lado de fora—, afirmou Cruz. — Eles têm medo de perder o emprego e têm muita vontade de trabalhar. Nunca temos qualquer problema por lá—.
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