Mesmo de barbas descoloridas e de sunga, repórteres e torcedores se desesperavam. Todos queriam ouvir uma palavra que fosse de Neymar. Ele só teve paz por estar cercado de seguranças. Enquanto isso, Robinho saia tranquilamente do estádio Parque do Sabiá em Uberlândia. O jogo beneficente, uma brincadeira, mostrou a distância entre os dois melhores jogadores que surgiram no Santos depois de Pelé. Existe um abismo entre eles.
Neymar é tudo o que Robinho sonhou para sua carreira e não conseguiu. Se firmou em um dos melhores clubes do planeta. Nem mesmo o fracasso retumbante do Brasil de Felipão atingiu sua carreira. Pelo contrário. Ele continua cada vez com mais prestígio no Barcelona, na Seleção Brasileira, no mercado publicitário. E até como cidadão. Seu instituto na Praia Grande beneficiará mais de dez mil crianças carentes. Com direito a atendimento médico e dentário. Tudo isso com apenas 22 anos.
Robinho, não. Já virou o Cabo da Boa Esperança. Completará em janeiro 31 anos. Sua carreira nos grandes clubes europeus está encerrada. Por desinteresse dos times do Velho Continente. Seu futebol empolgante, irreverente, assustadoramente talentoso ficou na promessa. Escolhas erradas, declarações desastrosas, arrogância. Tudo se juntou para tornar sua carreira muito menor do que poderia ter sido.
Não fez questão de se aprimorar. Só interessava os dribles. Sua finalização sempre foi fraca. As cobranças de falta indecentes. Não quis evoluir. Entender o jogo taticamente. Mal sabe cabecear. Seu ego não permitia cobranças. Daí problemas com treinadores. E ter perdido a Copa de 2014. Parou no tempo.
Robinho jamais ouvirá da boca de Neymar. Mas os fracassos de sua carreira serviram como lição. O caminho a não ser seguido. Ambos tiveram o mesmo empresário que os lançou no cenário internacional: Wagner Ribeiro. Ele não esconde para ninguém que foi ambição desmedida a grande inimiga de Robinho.
Ele surgiu em 2002, no time que conseguiu, de maneira surpreendente, ser campeão brasileiro. Em cima do Corinthians. As oito pedaladas que enlouqueceram o experiente Rogério, o obrigando a cometer pênalti, entraram no inconsciente coletivo dos brasileiros. Até hoje, Robinho provoca expectativa, ansiedade ao entrar em campo. Ele assustava seus marcadores. Agora não mais.
No Real Madrid se queimou garantindo que chegava para ser o melhor do mundo. Era a deixa para a panela comandada por Raúl o boicotar. Sem o menor constrangimento. Ele era um estranho no ninho. Os dirigentes do clube espanhol ficaram desolados. Eles enfrentaram até ameaças da Fifa para tomar Robinho do Santos. Sua saída em 2005 foi deplorável. Rendeu muito pouco, cerca de 30 milhões de dólares. Na época, R$ 50 milhões.
Deixou muita mágoa. Mas parece que a praga dos dirigentes santistas pegou. Depois do boicote no Real Madrid, ele estava acertado com o Chelsea de Luiz Felipe Scolari. Mas os dirigentes merengues mostraram quem mandava. E Robinho foi parar no Manchester City. Irritado, de cara demitiu Wagner Ribeiro. Sem o escudo de Felipão, irritado e muito pressionado, seu rendimento foi péssimo. As brigas com Roberto Mancini foram deprimentes. Nem no banco de reservas passou a ficar.
Voltou para a sua casa, o Santos. Os dirigentes o perdoaram como uma filha que fugiu para casar e foi abandonada pelo marido. Em 2010, encontrou o garoto Neymar e Ganso. No baixo nível técnico do futebol brasileiro, Robinho ajudou demais o Santos. Foi importante. Mas basta uma olhada em retrospectiva fria, ele já era coadjuvante da nova revelação santista. Com o auxílio do garoto que o admirava desde menino, seu rendimento foi ótimo.
A ponto de despertar o interesse do Milan. No seu retorno para a Europa, acabou no Milan. Só que encontrou o tradicional time italiano sem o poderio financeiro de décadas atrás. O elenco fraco não ajudava o futebol do brasileiro que rapidamente deteriorava.
Nunca foi protagonista na Seleção Brasileira. Sua imagem não atraia patrocinadores. Sua carreira ficava muito aquém do que sonhava. Mesmo assim, o São Paulo e o Flamengo tentaram contratá-lo. O Milan já o utilizava apenas de vez em quando como titular. Não foi chamado para disputar a Copa de 2014. Sem saída, desanimado, voltou pela terceira vez para o Santos. Encontrou um time com suas finanças desequilibradas e elenco fraco.
Na Europa, Robinho cedeu à tentação. Ficou mais forte fisicamente. Perdeu habilidade e velocidade. Se tornou um jogador previsível, facilmente marcável. Voltou para o Santos com salários excelentes de R$ 600 mil. Não correspondeu. Não para o que se esperava dele. E há grande chance de que acabe sendo dispensado. Não há mobilização, desespero, empenho hercúleo de Modesto Roma Júnior para pagar seus alto salário para o futebol brasileiro.
Mesmo assim, a empáfia atrapalhou sua ida para o Orlando City. Kaká convenceu o brasileiro dono da equipe norte-americana a levar o atacante. Flávio Augusto da Silva se irritou com a pedida alta do atacante. Quando soube que Kaká receberá R$ 1,4 milhão, Robinho teria pedido R$ 1 milhão mensais. Flávio negou. A transação foi cancelada.
Na véspera dos 31 anos, o atacante não sabe o que será de sua carreira. No Palmeiras, Paulo Nobre está sendo pressionado para bancar o seu salário. A transação é fácil. O Santos abre mão do jogador. Só depende do bilionário dirigente. O Atlético Mineiro e o Flamengo também surgem como possibilidades. A verdade é que o encantamento por Robinho passou até no futebol brasileiro.
Ao contrário do que acontece com Neymar. O menino que sonhava ser Robinho, hoje é tratado como um semideus. Ficou muito para trás as pedaladas que dava em cadeiras na sala, gritando ser Robinho. Neymar se transformou em um dos maiores jogadores midiáticos do planeta. O Barcelona lhe paga oficialmente R$ 35,6 milhões anuais. Seus rendimentos passam de R$ 50 milhões anuais com ações publicitárias.
Neymar conseguiu o impossível. Sair ileso da sua absurda venda ao clube catalão. Em 2011, jogando a final do Mundial com a camisa do Santos, diante do Barcelona, seu pai já havia embolsado 10 milhões de euros, cerca de R$ 32 milhões, só para garantir a preferência. E vencer o Real Madrid na concorrência.
O saldo é um dos maiores absurdos nas transações esportivas já feitas neste país. O Santos ficou com R$ 57 milhões. E a família de Neymar, R$ 193 milhões. Negócio sem pé e cabeça que custou a demissão de Sandro Rossel. E ainda pode dar dor de cabeça na Justiça espanhola para o pai do jogador.
Mesmo assim, a idolatria a Neymar na Vila Belmiro continua intacta. Há singelos pedidos dos dirigentes que encerre a carreira no Santos, daqui dez, 12 anos. O atacante ri, mas não se compromete. Mesmo assim, a adoração só aumenta.
No Barcelona, sua carreira deslancha. E com o apoio do elenco. Principalmente de Messi. Ao dizer que aceitava o papel de coadjuvante do argentino, Neymar se mostrou muito mais esperto que Robinho. Nada de bater no peito e avisar que seria o melhor do mundo. Comendo pelas beiradas desfruta de respeito e orgulho do clube catalão. A tal ponto que já recebeu a proposta de esticar seu contrato até 2022. Com direito a ganhar o dobro que recebe atualmente. O brasileiro ficou de pensar, junto ao pai.
Sem pressa, alarde ou anúncio público, Neymar se aproxima da escolha do melhor jogador do mundo. Está plantando com a certeza de que a colheita acontecerá nos próximos anos. Além da orientação dos cerca de 30 profissionais que cuidam de sua carreira, o atacante é muito esperto. Não se expõe à toa.
A comparação hoje é injusta. A carreira de Robinho não decolou na Europa. E agora vive o início de sua decadência. Sabe que não alcançará a Copa de 2018. Por mais que Dunga o adule. Não tem mais potencial físico para a intensidade que o futebol de altíssimo nível exige.
Neymar está crescendo de forma impressionante. A passagem na Europa o fez entender taticamente o jogo de futebol. Não se aprofunda nos 7 a 1, mas sabe o quanto a Seleção de Felipão jogou errado, aberta, pedindo para ser goleada. Tem pela frente, pelo menos mais duas Copas do Mundo.
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