| Neto Braga, um poeta, um homem de muitas histórias! |
Parece estar ocorrendo entre nós um renascimento do Cordel, que já circula nas salas de aula e em performances e récitas que substituem as antigas cantorias. Nos últimos anos tem aumentado esse interesse pela chamada Literatura de Cordel; surgiram novos valores, em grande parte saídos da Universidade, como Neto Braga, enraizada na zona rural de Afonso Bezerra, melhor dizendo, na Fazenda Santa Clara, onde mantém um pequeno museu popular. Pertence ao elenco dos neocordelistas e, além de poeta e performer, é professor da Rede Pública e um entusiasmado cultor das letras.
Vive num município que compõe a geografia da Região Central. Em sua terra é reconhecido como um autêntico talento; um talento exigente ao nível do perfeccionismo, o que faz de seus folhetins um grande momento da poesia popular no Rio Grande do Norte. Ele usa a poesia, como Janduhi Nóbrega em Patos, para instruir e informar com uma verve vivaz.Aldorisse Henriques, sua conterrânea, amiga e admiradora de muitos anos, traz-me alguns folhetins de Neto Braga e informa que o mesmo é licenciado em História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte. Tem já, publicados em cordel, vários títulos.
Não escreve sem propósito: sua produção se volta para o soerguimento cultural de sua terra, que no passado nos deu o jornalista e escritor Afonso Bezerra, falecido aos 22 anos, em 1930. Não admira que seja Neto Braga seu biógrafo, o biógrafo meticuloso que mergulhou bem fundo em seu tema e ao fazê-lo, como afirmou sobre o assunto, mostra o poeta a vida, o tirocínio, a morte e o legado cultural do seu conterrâneo que empresta seu nome ao município, antes um distrito de Angicos, chamado Carapebas.
Como escritor, Afonso Bezerra parece ainda mergulhada no limbo e à espera da curiosidade, da atenção e dos estudos que se fazem necessários para a difusão e engrandecimento de sua obra de ficcionista que se pode afirmar como a de um regionalista promissor.Tudo o que escreve está enfeixado em um único volume organizado pelo escritor Manuel Rodrigues de Melo, há muito esgotado. Uma verdadeira raridade bibliográfica. Com o seu folhetim, Neto Braga desperta-nos para a obra de Afonso Bezerra, no mínimo abre uma fresta que nos entremostra o patrono da velha Carapebas a pedir-nos a atenção, pois o que escreveu está aí para engrandecer a literatura produzida em sua época.
Escreve o poeta da Fazenda Santa Clara sobre temas variados, mas a biografia ou a crônica de uma vida o encanta e se faz presente em seus principais e mais elaborados títulos. Entre os quais se conta Afonso Bezerra: a Biografia; um passeio pela vida do poeta do Eu, Augusto dos Anjos – um escritor que o impressiona e se faz presente em sua vida através de uma continua pesquisa de sua obra; Túnel do Tempo , folhetim enriquecido com infogravura de Henrique Eduardo sobre fotografia de Tarsila Braga, que já começa exaltando o mais importante símbolo religioso da paróquia:
– Nossa Senhora das Graças!/Minha virgem padroeira!
Desça urgente do altar/Venha à minha cabeceira,
Traga-me a inspiração,/Em forma de oração,
- Oh! Nossa Mãe verdadeira!
E o termina com estes versos:
Termino o Túnel do Tempo/Relembrando os idos anos,
Cordelar as próximas décadas/Talvez até faça planos.
Vou minha nave encostar,/Agora irei me arrumar
Para a festa com Los Manos.
Nesse folhetim escreve-se, sobretudo, a comedia humana de Afonso Bezerra: todo o piccolo mondo do poeta é decodificado em versos que sugerem uma crônica, a crônica do povo de Nossa Senhora das Graças, presente na tradição e no imaginário de seus habitantes. O próprio Afonso Bezerra já o inspirou uma biografia em 120 estrofes, mais de 800 versos, que ele considera insuficientes para falar de um talento que dá nome ao município:
...Tenham paciência, leiam!/Se o tempo der, releiam!
Cada verso, um por um...
Neto Braga é um desses gênios tutelares da cultura. Em sua terra, sem apoio das instituições, mantém uma Casa de Cultura e um museu, já, algumas vezes, assaltado, por falta de segurança. Mas ele não desiste e faz de Afonso Bezerra, com o seu trabalho, um endereço da cultura que não depende de benesses do poder; cultura que se faz longe dos gabinetes, por força do talento e por vontade própria de quem sabe e tem a palavra em riste.
Um Homem de Frutuoso Gomes
Conheci Xavier, Francisco Xavier de Azevedo, uma noite em Frutuoso Gomes, numa reunião na Câmara Municipal, quando da passagem dos 80 anos do ataque de parte do bando de Lampião a Mossoró, em 1928. Ex-vereador e ex-prefeito do município , creio que se interessou pela sugestão que fiz aos jovens integrantes da Rádio Comunitária Liberdade FM 109,9, de criarem ali, naquele espaço tão modesto, uma biblioteca comunitária; eu me comprometeria com as primeiras doações.
Ao voltar para minha casa, em Mossoró, onde residia na época, logo selecionei de minha biblioteca 150 títulos dos 300 que pretendia doar para dar início ao empreendimento, porém pareceu-me que a coisa ia morrer ali mesmo, pois o tempo foi passando sem mais nenhum contato, voltei a morar em Natal e comigo voltaram os livros, não todos, pois muitos deles e outros mais acabaram engordando outras doações, entre as quais para a Academia de Letras de Apodi, cujo acadêmico que se propôs a ir recebê-los, revelou-se um depositário infiel e tornou propriedade sua o que devia pertencer ao acervo da instituição então recém-criada.
Um lastimável mau exemplo que expõe a gravidade do relacionamento entre o privado e o público no Brasil.Pois bem. No começo deste ano recebi a visita de Xavier, 71 anos, agricultor, pai de quatro filhos, que veio pessoalmente receber os livros que lhes prometera. Aconselhei-o a procurar, em nome da Associação de Desenvolvimento e Integração Social , que preside, a deputada Fátima Bezerra, que certamente, por sua atuação em favor da Educação, teria interesse em dar o seu apoio na criação de uma biblioteca para Frutuoso Gomes.
Aconselhei-o, também, a procurar a Fundação José Augusto que mantém em seus porões centenas de exemplares de livros sem utilidade e sem uso.Escrevo estas linhas no intuito de despertar a sensibilidade dos frutuenses que vivem em Natal para que participem e contribuam com a doação de livros para essa biblioteca que seus conterrâneos desejam. Que os livros sejam enviados diretamente à Rádio Liberdade, Rua João Frutuoso 145, Frutuoso Gomes/RN CEP: 59890-000. Um pequeno investimento na cultura dos jovens dessa calorosa e gentil comunidade norte-rio-grandendense. E-mails: liberdadefm@hotmail.com e liberdade@hotmail.com.
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