Há argumentos favoráveis e contrários a esse dever que
voltam à discussão em períodos de campanha. Se por um lado votar ajuda a ter um
compromisso com a política, por outro o voto obrigatório pode gerar uma escolha
sem critérios concretos.
Entretanto, sabemos quão nova é nossa democracia e, por
conseguinte, quão frágil é nossa cultura política. Ainda estamos na fase da
solidificação das nossas instituições democráticas bem como da criação de
mentalidades críticas e democráticas. Tudo isso necessita de tempo e
aprendizado. O desafio imposto pelas condições históricas (sociais e
econômicas) pelo imaginário político (fortemente conservador, na nossa região),
exige que em cada campo de atividade governamental se realize três trabalhos
simultâneos: a mudança na mentalidade, a definição de prioridades voltadas para
as carências e demandas das classes populares e a invenção de uma nova cultura
política.
Desse modo, a preocupação está, sobretudo, com a
estabilidade democrática e as condições culturais para o estabelecimento da
mesma. A participação facultativa no pleito pode levar a ruina da estabilidade
democrática por ser ainda no, nosso caso, muito recente essa cultura da
participação. E mais, pode tornar ainda mais forte a prática do clientelismo,
ou seja, a venda do voto. Se não houver mudanças sociais significativas, isto
é, a criação de meios para que a cultura política possa fazer parte do dia a
dia do eleitor o que poderemos ter é um eleitor que pode escolher ir, ou não,
votar, mas que não carrega consigo a premissa democrática que é a do comum, do
público. Nesse sentido alguém pode oferecer vantagens para que ele decida
participar da eleição, mas a sua participação não é porque ele se ver
responsável não só pelo seu clã familiar, mas com o todo que é a cidade, com
todo que é população e faz parte dela. Nesse caso, fará a diferença no processo
eleitoral aquele que conseguir mobilizar um grupo. E quem conseguirá mobilizar
tal grupo? Aquele que tiver na sua mão a máquina pública. O voto poderá se
tornar objeto de manipulação.
Por tanto, o voto não pode ser visto como obrigação e sim
como um direito que possibilita mudanças significativas. A participação
constante do eleitor no processo eleitoral torna-o ativo na determinação do
destino da coletividade a que pertence, influindo, desse modo, nas prioridades
da administração pública, ao sugerir, pela direção de seu voto, aos
administradores quais problemas desejam ver discutidos e resolvidos; a omissão
do eleitor pode tornar ainda mais grave o atraso socioeconômico das áreas
pobres; também, leva o debate eleitoral para os lares e locais de lazer e de
trabalho, envolvendo, inclusive, as crianças e jovens que serão os eleitores de
amanhã.
Do ponto de vista da cultura política isto é muito caro e
permitirá estimular formas de auto-organização da sociedade e sobretudo das
camadas populares, criando o sentimento e a prática da cidadania participativa.
Isso proporcionará mudanças significativas nas mentalidades e comportamentos
dos cidadãos. O voto é um direito, é hoje uma forma de trazer para o debate
aquele que desde sempre foi excluído da participação e construção do futuro da
cidade, do público.
Vamos acreditar na força do voto. Mas para isso vamos
também criar meios de uma maior participação da população na discussão da
importância do voto, do voto consciente. E dessa forma que nossa cultura
política vai se fortalecendo. Vamos levar essa discussão para nossas casas,
bares, futebol etc. Pois a política não é feito por um, mas por todos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Os comentários serão avaliados antes de serem liberados