
A mata virou capoeira e algumas áreas estão ficando desérticas provocadas pelo desmatamento. E o tempo está passando.
Lá se vão várias décadas, principalmente as de 60 e 70 do século XX, que eu presenciei. O algodão era a riqueza nas propriedades, foi o ouro branco do sertão.
O algodão era a galinha dos ovos de ouro do homem da roça. Era quem garantia a renda adquirida através da safra e servia para comprar as vestimentas da família, um móvel novo para a casa, uma bicicleta, um boi de campina, um arado. Isso nas pequenas e médias propriedades. Já nas grandes fazendas, os agricultores tinham lucros maiores e, com isso, compravam caminhões, tratores, carroças, casas em Natal, carros particulares e algo mais.
Os ‘apanhadores’ de algodão saíam bem cedinho com o bisaco e o cabaço com água, no piar do passarinho ou no cantar do galo. “Vamos ver quem apanha mais?”. Havia sempre uma disputa. Falavam sempre que fulano ou sicrano era um grande ‘apanhador’.
A unidade de medida era a arroba -15 quilos, levado à balança sempre no final da tarde. Caderneta na mão, Chico colheu 16 kg, José, 20; Maria, 17.
A soma era acumulada por toda a semana e o pagamento, só após a venda do produto, no sábado, dia de feira na cidade. Na cidade circulavam caminhões e tratores com carroças 'carregados' de trouxas de algodão, que eram vendidas nas algodoeiras locais ou em outros centros.
Alguns produtores como Mulatinho, Chico Câmara, José Carneiro, Ranulfo Costa, Chico Rufino, Teodoro Ernesto, Segundo Veríssimo e outros, carregavam os caminhões de algodão e alguns entregavam nas duas usinas locais, outros, descarregavam na usina de São Miguel, aos galegos ingleses.
Vale salientar que o comércio era grande, muitos agricultores tinham imensos armazéns no centro da cidade para armazenar essa riqueza.
Circulava muito dinheiro, além de festas como ano novo, AUPA, carnaval, semana santa, São João, padroeiro da cidade, Natal. Imagine que o nosso município, Pedro Avelino, tinha quase 14 mil habitantes.
A preocupação: “Sai de cima do algodão, menino!, você vai adoecer, vai se coçar, pode cair e quebrar o braço”, esbravejava a mãe do garoto, cuidadosa. O depósito do produto era feito na primeira sala da casa ou no alpendre, a famosa varanda.
Havia época que mal dava para adentrar para o interior da residência. O estoque chegava a tocar no telhado e as crianças se apropriavam da ‘ruma’ daqueles capuchos branquinhos para desenvolverem algumas peripécias.
Dessa 'brincadeira' eu participei quando papai arrendou a fazenda Serra Aguda, na década de 60.
Com o tempo, o algodão foi aos poucos sendo consumido por uma praga, apenas conhecida como ‘bicudo’. Vencido, sem nenhuma alternativa que possibilitasse salvar a lavoura, até o seu esgotamento final.
E hoje, o algodão esquecido no seio da caatinga, a sua presença é apenas o testemunho que faz brotar na lembrança a sentença de um tempo que não volta mais.
Marcos Calaça, professor e jornalista (UFRN)
COMENTÁRIO DO PROFESSOR BOSCO: Professor Marcos, você tem sido cada vez mais feliz no saudosismo nativista da nossa terra. Creio que a nossa ascensão dar-se-á num futuro bem próximo. Ainda não é dia claro, mas já é alvorecer.. Prof. e Poeta João Bosco.
FOTO: Caminhão do senhor Chico Rufino carregado de algodão
Década de 70. Motorista: Chico Honorato, o primeiro da esquerda.

otimo comentário; esse tempo foi também do meu pai Saudoso ( Espedito Martins Avelino ) e todos nós crescemos com esse conto verdadeiro, tempos bons para todos daquela época e riqueza de Histórias Para Todo o Povo daquela Região Principalmente.
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