
O
ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, preso em Curitiba pela Operação Lava Jato,
disse em delação premiada que pagou R$ 1 milhão em propina ao ministro Humberto
Martins, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em troca de ajuda com um
recurso que tramitava na corte. Martins atualmente é corregedor nacional de
Justiça do CNJ
(Conselho Nacional de Justiça).
A
colaboração de Pinheiro foi assinada neste mês com a Procuradoria-Geral da
República. O acordo ainda precisa ser homologado pelo STF (Supremo Tribunal
Federal).
Pinheiro
afirmou aos procuradores que a propina foi negociada com o advogado Eduardo
Filipe Alves Martins, filho do ministro, e que o procurou por sugestão do
senador Renan Calheiros (MDB-AL).
O
empreiteiro afirmou que Eduardo pediu inicialmente R$ 10 milhões para reverter
um julgamento desfavorável à empresa e, após nova negociação, foi acertado um
pagamento de R$ 1 milhão para que o caso fosse retirado da pauta.
Segundo
Pinheiro, a maior parte da propina foi paga em dinheiro vivo e o restante por
meio de contratos fictícios entre uma fornecedora da OAS e o escritório de
Eduardo.
O
recurso citado na delação foi proposto pela OAS contra uma decisão do TJ
(Tribunal de Justiça) da Bahia, que deu ganho de causa à Prefeitura de Salvador
em ação da empreiteira em razão de créditos da obra do canal Camurujipe.
O
recurso tramitou na Segunda Turma do STJ e o ministro Humberto Martins foi
designado como seu relator. Em 18 de junho de 2013, o recurso da OAS foi
negado.
Em
2 de agosto, a empreiteira entrou com embargos de declaração para tentar
reverter a decisão. Pinheiro, então, disse que pediu ajuda ao senador Renan
Calheiros.
“Como
tinha conhecimento da relação de proximidade existente entre o senador Renan
Calheiros e o ministro Humberto Martins, o procurei para solicitar que
intercedesse”, disse Pinheiro, segundo trecho da delação. Renan, de acordo com
ele, comprometeu-se a falar com Martins.
Em
10 de setembro, porém, os embargos foram incluídos na pauta do dia 17 de
setembro sem que Pinheiro tivesse uma sinalização qualquer sobre a
possibilidade de modificação do julgado.
Diante
disso, Pinheiro disse que procurou Renan novamente, que sinalizou que falaria
com Martins “sobre a possibilidade de adiar o julgamento, o que, de fato,
ocorreu”.
Segundo
o delator, em relação à possibilidade de reversão do julgamento desfavorável
ocorrido na turma, Renan lhe aconselhou a procurar Eduardo Martins, filho do
ministro e que tinha escritório de advocacia em Brasília.
“Eduardo
Martins me solicitou a importância de R$ 10 milhões para reverter o julgamento
desfavorável à empresa”, disse Pinheiro na delação.
O
empreiteiro disse que considerou o valor elevado e pediu para que o filho do
ministro estudasse uma alternativa, já que a OAS não teria ganhos imediatos,
pois antes de receber enfrentaria uma fila de precatórios da prefeitura.
Eduardo,
segundo o delator, disse não ser possível desconto na propina porque haveria
desgaste para reverter o julgado, sobretudo com a ministra Eliana Calmon, que é
da Bahia e pressionava para que o julgamento fosse rápido.
Pinheiro
disse que Eduardo Martins sugeriu R$ 1 milhão “pela retirada da pauta dos
embargos e pelo atraso no seu julgamento até a saída da ministra Eliana Calmon
do STJ”, que havia anunciado sua aposentadoria.
O
empreiteiro afirmou ter aceitado a proposta, mesmo ela não resolvendo seu
problema, por considerar que o ministro poderia julgar outros assuntos de
interesse da OAS. O caso, de acordo com ele, foi pautado várias vezes, mas por
interferência de Martins foi retirado da pauta.
“Este
valor de R$ 1 milhão foi pago da seguinte forma: R$ 820 mil em espécie entregue
em um flat no Lago Sul (em Brasília) de propriedade de Eduardo Martins e R$ 180
mil através de contratos de honorários fictícios realizados por fornecedor da
OAS. O contrato em questão foi celebrado em 30.10.2013 com pagamentos
realizados em 16.12.2013 e 16.01.204, de R$ 90 mil cada”, afirmou Pinheiro na
delação.
Ele
disse que, após seis meses de atraso nos embargos, Eduardo Martins quis cobrar
“valores adicionais para tal interferência no andamento processual”, o que não
foi aceito pela empreiteira. Em 19 de agosto de 2014, os embargos de declaração
foram então incluídos na pauta e rejeitados pelos ministros.
Investigações
sobre ministros do STJ tramitam perante o STF, devido ao foro especial dos
magistrados.
Recentemente,
os ministros do STJ Francisco Falcão e Marcelo Navarro foram alvo de inquérito
aberto no Supremo a pedido da PGR, após delação premiada do ex-senador Delcídio
do Amaral. O caso foi arquivado porque não foram encontradas provas de que eles
participaram de um esquema para obstruir a Lava Jato, como dissera o delator.
Ministro
nega relacionamento
O
ministro Humberto Martins declarou que não tem relacionamento com funcionários
da OAS e já se declarou impedido de julgar os processos em que parentes de até
terceiro grau atuem como advogados.
Ele
também afirmou em nota que “a presidência do STJ analisou todos os processos
que relatou ou nos quais proferiu voto vogal envolvendo as partes às quais se
sugere que teria havido favorecimento e verificou que os pedidos formulados
pelas empresas foram indeferidos”.
O
advogado Eduardo Martins disse que nunca tratou de assuntos pessoais ou
profissionais com Léo Pinheiro ou com qualquer outra pessoa sobre processos
relatados por Humberto Martins. Disse que a acusação de Pinheiro lhe causa
“surpresa e indignação” e “é completamente desprovida de elementos mínimos de
prova”.
A
OAS disse que conta com uma nova gestão e tem contribuído com as autoridades
competentes e com a Justiça.
O
senador Renan Calheiros não se manifestou.
A
defesa de Léo Pinheiro não quis se manifestar.
https://www.blogdobg.com.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Os comentários serão avaliados antes de serem liberados