
Um
ex-delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) chegou a mostrar
para investigadores da Comissão Nacional da Verdade o forno em que incinerou o
corpo do militante de esquerda Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB
(Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, e de mais 11 presos
políticos assassinados entre
1974 e 1975 pelo regime militar no Rio de Janeiro.
A
incineração foi feita em um forno da usina de açúcar Cambahyba, em Campos dos
Goytacazes (RJ), segundo o próprio ex-delegado.
Cláudio
Antonio Guerra tem hoje 78 anos e na quinta-feira (1º) foi denunciado pelo
Ministério Público Federal por ocultação e destruição de cadáveres, por conta
do desaparecimento dos 12 corpos. Ele admitiu os crimes primeiramente no livro
“Memórias de uma guerra suja”, dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério
Medeiros, em 2012. Dois anos depois, confirmou tudo e mostrou detalhes da
operação de incineração para a Comissão Nacional da Verdade. Em todos os seus
depoimentos posteriores, ao Ministério Público, Guerra reafirmou os crimes.
Duranta
a semana, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que sabia o destino do pai
do presidente da OAB e afirmou que ele não teria sido morto pela ditadura.
Ao
ser confrontado com os documentos de Estado que tratam da morte e
desaparecimento como crimes da ditadura, o presidente afirmou tratar-se de
“balela”. Felipe Santa Cruz e outros ex-presidentes da OAB pediram explicações
a Bolsonaro, impetrando uma interpelação no Supremo Tribunal Federal — e o
ministro do STF Luís Roberto Barroso, em decisão sobre a interpelação judicial,
afirmou que o presidente tem 15 dias para responder, em “querendo” fazê-lo.
Nessa
sexta (3), Bolsonaro afirmou que não falou “nada de mais” sobre o pai de Felipe
Santa Cruz e disse que responderá ao STF. “Mesmo eu não sendo obrigado, eu
presto [esclarecimentos]. Não falei nada de mais”, disse.
O
ex-delegado prestou pelo menos dois depoimentos à Comissão Nacional da Verdade.
Em um deles, em 23 de julho de 2014, identificou os mortos por fotos
apresentadas pela comissão. Ele contou que recolhia os mortos em dois centros
de tortura: um em Petrópolis, conhecido como Casa da Morte, e outro, um quartel
da Polícia do Exército, no Rio.
O
BuzzFeed News buscou nos arquivos da comissão as imagens e os vídeos de
depoimento do ex-delegado.
“Nesse
período, 1974 e 1975, começou uma pressão muito grande sobre o governo por
causa do desaparecimento de corpos. Os coronéis que estavam no comando do país
queriam um meio de desaparecer mesmo [com os corpos]. Então foi dada essa ideia
de ser incinerados os corpos”, disse o ex-delegado em 2014.
Guerra
também participou de uma diligência da comissão na antiga usina. Lá, mostrou o
forno e contou detalhes de como eram jogados os corpos.
“Eram
geralmente duas pessoas. Eu mesmo pegava”, disse ele, explicando como atirava
os mortos na fornalha.
A
ideia de desaparecer com os corpos por incineração na usina foi dada pelo
próprio delegado a um alto comandante da repressão na época, o então coronel
Fred Perdigão, já morto. O forno da usina ficava ligado por seis meses sem
interrupção. A Comissão Nacional da Verdade confirmou com técnicos que a
dimensão dos fornos tinha capacidade para incinerar pessoas.
O
delegado disse que viajava até 200 quilômetros para queimar os corpos e que
chegou a usar seu carro particular em uma das viagens. Mas, de modo geral,
usava carros descaracterizados, com placa fria, da polícia. Disse que nunca foi
parado mas que, se fosse, usaria a carteira do Dops (Departamento de Ordem
Política e Social), para o qual trabalhava.
“Nessa
época, o poder nosso era muito grande, ninguém parava”, disse ele.
Os
corpos eram entregues em sacos plásticos e colocados no porta-malas do carro.
Mas o delegado do Dops contou no vídeo que, por curiosidade, abriu todos os
sacos para ver os mortos. Em um dos casos, ficou marcado pelo nível de
violência usado contra a vítima, a professora da USP Ana Rosa Kucinski, que
tinha marca de mordidas e violência sexual.
“[O
corpo] Era entregue ensacado. Eu abria, era curiosidade. Embora fosse uma coisa
macabra, eu não sentia nada. Hoje, olhar as pessoas ali, o senhor não calcula
como estou por dentro”, disse o ex-delegado, que afirma ter feito as confissões
por arrependimento.
Ao
ser apresentado a fotos dos 12 mortos, o ex-delegado reconheceu a maior parte.
Ele disse que, na época, não sabia exatamente de quem se tratava, mas que, ao
produzir o livro, foi fazendo o reconhecimento.
Questionado
por um dos integrantes da Comissão Nacional da Verdade diante da foto do pai do
presidente da OAB, Guerra foi enfático:
“É
o Santa Cruz.”
BuzzFeed.News
https://williams-rocha.blogspot.com/

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