sexta-feira, 31 de maio de 2013

Um 29 de maio, de Zico e Zé Henrique

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Arnaldo César Coelho ajudou, sim, ao Flamengo naquele domingo há 30  anos feitos nesta quarta-feira. Arnaldo nem quis explicar  se podia, mas deixou de marcar um pênalti estarrecedor sobre o meia Pita, do Santos, na decisão do campeonato brasileiro de 1983.

Pita iria empatar a partida no primeiro tempo quando foi agredido dentro da área pelo zagueiro Marinho. Arnaldo mandou seguir. O empate por 1×1 daria o título ao Peixe, vencedor do primeiro jogo das finais no Morumbi por 2×1.
Mas nem Arnaldo nem José de Assis Aragão, que parecia apitar com a camisa rubro-negra por baixo do uniforme, impediriam o último show de Zico no dia 29 de maio, um domingo que consagrava e encerrava o ciclo de uma máquina de jogar futebol, tempo cronometrado a partir da cabeçada de Rondinelli aos 42 minutos do segundo tempo na decisão do Carioca de 1978, 1×0 sobre o Vasco.
Zico entrou em campo no Maracanã tenso. Estava vendido para a Udinese, da Itália, por 4 milhões de dólares na época, o preço de um Jádson, medíocre frequentador dos times atuais da CBF. O negócio fora fechado na véspera e a imprensa segurava a informação para não abater os companheiros do Galinho.
O Flamengo tinha um timaço e contava com arbitragens e a mídia para fechar o cadeado de suas vitórias. Não precisava de roubos, mas os homens de preto colaboraram e muito para a fase épica dos rapazes da Gávea.
Os jornalistas torciam descaradamente, na televisão, no rádio e nos jornais. Quando perdia, o Flamengo amanhecia a segunda empatando a partida na coluna de Ótelo Caçador, de o Globo.
Era o “ placar moral”, que o jornal inventara adaptando a balela de campeão moral, entre aspas vergonhosas,  de 1978 do capitão Cláudio Coutinho, técnico do Flamengo e da seleção brasileira invicta e terceira colocada no Mundial da Argentina.
Mas no dia 29 de maio de 1983, Zico saiu aclamado do Ex-Maracanã em catarse coletiva. Eram 155.253 torcedores berrando pelo terceiro título nacional. O maior público da história das decisões de brasileiros. Jamais haverá outra massa igual  com a chegada das arenas substituindo aos estádios tradicionais e inesquecíveis, porque neles jogavam craques.
O Flamengo fez 1×0 com apenas um minuto de partida. O falso ponta Júlio César Barbosa, um loiro que não driblava como o anterior, Júlio César, o entortador de laterais, resolveu imitar o xará e fez um carnaval, humilhando Toninho Oliveira. Cruzou, a zaga rebateu, Júnior chutou, o goleiro Marola espalmou nos pés de Zico. Flamengo 1×0.
Houve o lance do pênalti sobre Pita. O Santos estava desfigurado sem o seu volante titular, Lino. Em seu lugar, Toninho Silva colecionava dribles das mais lindas astúcias. Zico e Adílio revezando-se no balé. Zico cobra escanteio e Leandro cabeceia aos 39 minutos do primeiro tempo. Flamengo 2×0 e a diferença é tirada.
Vem o segundo tempo e Zico está implacável em suas fintas sequenciais sobre Toninho Silva. Até o ótimo Paulo Isidoro tenta, inutilmente, parar o Gênio de Quintino. Que faz fila, passando por dentro e por fora dos seus marcadores. Zico parece prever o fim do mundo aos 45 minutos do segundo tempo.
E seria sim, no seu sentimento, o título sem razão de festa. O Flamengo ainda faria o terceiro gol. Zico iniciou a jogada e a bola ficou no pé do ponta-direita Robertinho, que começou no Fluminense. Ainda havia resquícios  de pontas-direitas pelo Brasil.
Robertinho dá dois dribles de encerrar a carreira no lateral-esquerdo Gilberto Sorriso e cruza na cabeça do sambista Adílio. Um mergulho, a cabeçada fatal, sem chances para Marolla, goleiro fraco do Santos que depois traria o fantástico uruguaio Rodolfo Rodriguez.
Adílio dança para a geral, espaço dos pobres que os nobres extirparam dos estádios. Adílio sorri como o menino da Cruzada São Sebastião, comunidade humilde criada por Dom Hélder Câmara, festejando seu terceiro campeonato brasileiro.
Zico está sem jeito quando Arnaldo apita. Exibe o rosto disforme e inconformado das despedidas. Solta frases curtas, celebra a conquista aos monossílabos. Nem ouve as exclamações radiofônicas sobre a sua exibição, considerada uma das principais da antologia com a camisa 10 do Flamengo.Zico sabia que aquela  história fechava sua cortina.
Bem distante dali, em Natal,  umas três horas depois, éramos acordados com uma notícia trágica.Nosso amigo de rua, peladas e travessuras José Henrique Brandão Ramalho, 15 anos, morrera com o colega de Colégio Marista  Cássio Felipe. José Henrique amava velocidade e partiu da vida rápido como o raio que se assemelhava ao seu cabelo parafinado de surfista.
Numa moto potente, bateu em vacas  que atravessavam a avenida Hermes da Fonseca em frente ao Estádio Juvenal Lamartine. Estava indo à orla marítima comemorar o tricampeonato flamenguista.
Zico voltaria ao seu clube  em 1985. José Henrique, nunca mais. Agora,  tenho a idade de ser pai dele. Faz 30 anos. Hoje. E aquele domingo de despedidas parece estar aqui, repassado em capítulos. Bem lentos.

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