quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ganso vira sapo

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Ganso-Foto-Miguel-Schincariol_LANIMA20120830_0048_26O príncipe dos românticos. Paulo Henrique Ganso deliciava o gueto de resistência pela arte em suas jogadas socráticas de canhota. Em 2010 e 2011, vislumbrava-se o novo dono da camisa 10 brasileira, instituição criada por Pelé em 1958, na Copa do Mundo da Suécia.Até 1958, a 10 era um número como comum. Distribuído pela composição tática de cada time. O meio-campo era composto pelo 5, pelo 10, mais recuado, de armador e 8 era o ponta-de-lança, o homem de duplo refino: A
capacidade de criar e finalizar sintetizada no Mestre Zizinho, o gênio brasileiro a enfrentar a supremacia argentina até o nascimento de um Rei.
A camisa 10 passou a carimbar o melhor, o mais importante, a referência. O violão debaixo do braço, retrato em branco e preto da Bossa Nova, movimento musical surgido no esplendor da libertação do Complexo de Vira-Latas por Pelé, Garrincha e Didi nos campos suecos.
Jair Rosa Pinto foi o 10 em 1950. Quatro anos depois, na Suiça, Zizinho em plena forma, deram o sudário a Humberto Tozzi, um meio-campista do Palmeiras que não entra na relação dos 20 maiores ídolos do clube.Após a despedida do Rei, as vestes da sabedoria couberam a Rivelino.
Justa sucessão. Rivelino comprova o desprezo do povo à memória. Ninguém, fora Messi, é melhor do que Rivelino no mundo de hoje. Rivelino compunha o menino típico das pelejas de rua. Habilidoso, driblador humilhante, genioso, chutador granadeiro.
Em 1974, salvou-se, com Luis Pereira e Marinho Chagas, do naufrágio retranqueiro do Brasil de Zagallo, eterno usurpador da beleza no futebol. Já expliquei que Zagallo é história no Brasil, mas não sabia driblar. O inconsciente punia quem esbanjava o talento que ele nunca teve.
Rivelino, aos 32 anos, em 1978, machucou-se na estreia e voltou apenas na decisão do terceiro lugar. Em 15 minutos de gingas, catimbas e pés por cima da bola com lançamentos de trivela, fez o Brasil virar sobre a Itália(2×1) e sair “campeão moral” segundo o Capitão Cláudio Coutinho. Trocaria aqueles 2×1 pelos 3×2 da Itália sobre Telê Santana e sua sinfônica em 1982.
Na Espanha mágica e trágica, o 10 era o amadurecido Zico. Em depoimento a um jornal italiano, o italiano Gentile, que marcou o Galinho e Maradona no Grupo da Morte das quartas, comparou um e outro, Maradona, óbvio aos 21 anos e ainda sem a manha da quase perfeição. “Foi mais difícil marcar Zico. Era mais completo que Maradona”.
De fato, naquele confronto, Maradona simplesmente não andou com Gentile grudado nele. Se precisasse ir ao banheiro, o carcamano iria junto. Zico deu um drible de calcanhar em Gentile e imediatamente lançou Sócrates para empatar em 1×1 no primeiro tempo.
Zico é o Quixote das Copas. Completo em todos os fundamentos, faria um Mundial exuberante no México. Mas havia um Márcio Nunes no meio do caminho. Márcio Nunes do Bangu, que esfolou os joelhos sagrados da Gávea e do Mundo.
Zico entrou destroçado na seleção, fez jogadas autorais e perdeu um pênalti. A Copa é uma implicante. Foi com Barbosa, Zizinho, Ademir, Falcão, Sócrates e foi muito mais com Zico, a individualidade plena e inalcançável depois que Pelé parou.
Depois de Zico, demorou para  outro monstro desfilar com a camisa 10. Em 1990, o cômico e caricato Sebastião Lazaroni resolveu fazer um sorteio entre os jogadores para entregar as camisas. Não tinha comando algum, somente pose e trairagem, segundo o dialeto boleiro.
Silas, bom meia revelado no São Paulo, ficou com a amarela sonhada. Se a 10 cai nas costas de Dunga, haveria a revolução contra o bagrismo. Em 1994, Raí entrou como esperança e saiu de figurante na fotografia do tetra conquistado por Romário.
Com Rivaldo e seu silêncio oriental em 1998 e 2002, a arquitetura retomou o lugar da engenharia. Voltou o criador, o pensador, o administrador do jogo, o autor de gols para a história cinematográfica. Rivaldo foi o melhor do Brasil nas duas Copas, embora os estatísticos e numerólogos elejam Ronaldo Fenômeno. Sem arco, a flecha não voa.
Ronaldinho Gaúcho passeou na Alemanha em 2006 feito atração de intervalo, fazendo embaixadinhas inúteis. Camisa 10 de verdade foi o francês Zidane. Kaká foi meia-boca para a Copa de Dunga e Felipe Melo em 2010. E, hoje, não temos, em Felipão, o camisa 10 que a unanimidade apontava para Ganso.
Ganso definhou. Jogou a toalha. Parece um deprimido em campo. Um entediado. Sombra ciumenta de Neymar. O Santos não abriria mão de um craque para o São Paulo tão facilmente. E o São Paulo põe Ganso na reserva. De Jádson, uma nulidade de diálogo com a gordinha.
Falta o camisa 10 e Paulo Henrique Ganso caminha para o arquivo morto dos ocasionais. De Washington, o “Novo Pelé” que nada foi. De Renato Pé-Murcho, nem Zico nem Sócrates como queriam que fosse a mistura dos dois. De Robinho. Ganso abusou da paciência e do tempo. O príncipe virou sapo sem o beijo da bola.

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